
Despertar do desejo

Penny Jordan



Resumo: " - Pagarei um milho de libras para que voc seja minha esposa por um ano. O casamento no ser consumado..."
O aristocrata italiano Lorenzo, duque de Montesavro, precisa de uma esposa e a turista inglesa Jodie Oliver parece ser a candidata ideal para esse casamento de convenincia.
A vulnerabilidade de Jodie  extremamente atraente. Mas quando Lorenzo desperta na moa um desejo que ela nem imaginava sentir, ele comea a se arrepender de no
ter consumado o casamento...
       CAPTULO UM
       No seja infantil, no se derreta em lgrimas, ordenou Jodie a si mesma, cerrando os dentes. Mesmo que estivesse escurecendo, mesmo morrendo de medo - daquele
medo que se manifesta no estmago por ter talvez cometido um grande erro - no apenas por pegar a estrada errada no ltimo vilarejo por onde passara h sculos,
lhe parecia. Hoje poderia ser a noite em que ela e John passariam a lua-de-mel num romntico hotel - a primeira noite como marido e mulher... mas no ia chorar.
No agora. Na verdade, nunca mais por homem nenhum. Nunca mais. O amor estava, e continuaria, excludo de sua vida e de seu vocabulrio.
       Ela assustou-se quando o pequenino carro de aluguel deslizou num buraco na estrada que subia em direo s montanhas quando deveria estar descendo em direo
ao mar.
       O primo e a mulher, os nicos parentes prximos, desde a morte dos pais num acidente de carro, quando tinha 19 anos, tinham tentado dissuadi-la a vir para
a Itlia.
       - Mas est tudo pago. Alm disso...
       Alm disso queria sair do pas, ficar longe nas prximas semanas enquanto o casamento de John com a nova noiva, Louise, que ocupara o lugar de Jodie no corao,
na vida e no futuro dele, estava sendo organizado.
       No que ela tivesse confessado esse motivo ao primo David e sua mulher, Andrea. Ela sabia que eles teriam tentado convenc-la a ficar em casa. Mas quando
casa significava Cotswolds, uma minscula cidadezinha onde todo mundo se conhecia e sabia que voc tinha sido abandonada a menos de um ms da data do casamento porque
ele havia se apaixonado por outra pessoa, ningum com um pingo de orgulho poderia permanecer ali. E Jodie era orgulhosa como toda mulher. Ainda mais porque queria
ser capaz de provar a todos - especialmente a John e a Louise - como se importava pouco com a traio de John.  claro que a maneira mais eficiente seria aparecer
no casamento deles com outro homem - um homem que fosse mais bonito e mais rico que John, e que a adorasse. Ah, se...
       S em sonhos, zombou mentalmente de si mesma. No havia a menor chance de algo assim acontecer.
       - Voc no pode ir sozinha para a Itlia - protestou David, enquanto ele e Andrea trocavam olhares dissimulados. Ainda bem que estavam na Austrlia, numa
visita aos pais de Andrea.
       - Por que no? Afinal de contas,  assim que vou passar o resto da minha vida.
       - Jodie, ambos compreendemos como voc est magoada e chocada - acrescentou Andrea gentilmente. - No pense que David e eu no compartilhamos de sua dor,
mas comportar-se dessa maneira no vai ajud-la.
       - Eu vou me ajudar - respondeu teimosa.
       Tinha sido idia de John passar a lua-de-mel explorando a maravilhosa costa amalfitana na Itlia.
       Assustou-se quando o carro passou por outro buraco na estrada, em pssimo estado de manuteno, o que tornava cada vez mais desconfortvel dirigir.
       A perna doa e comeava a se arrepender por no ter passado a primeira noite mais perto de Npoles. Onde estaria? Em nenhum lugar perto de onde devia estar,
suspeitava. Tinha sido quase impossvel seguir os letreiros para o pequeno vilarejo, pois no os encontrava no mapa. Se John estivesse a seu lado, nada disso estaria
acontecendo. Mas John no estava com ela e nunca mais estaria.
       No devia pensar no ex-noivo ou no fato de que ele tinha deixado de am-la e se apaixonado por outra, ou que estava saindo com algum enquanto ainda estavam
juntos ou que todo mundo na cidade aparentemente sabia disso, menos ela. As amigas de Jodie no lhe contaram que Louise tinha deixado claro que queria e teria John
assim que foram apresentados, logo aps os pais terem se mudado para o local. E, tola, no percebera nada, achando simplesmente que Louise, como recm-chegada e
forasteira estava louca para fazer amigos. Agora ela era a forasteira, pensou amargurada. Ela devia ter percebido como John soara artificial ao dizer-lhe que a amava
"apesar de sua perna". Ela estremeceu quando a dor da lembrana intensificou-se.
       Nunca mais cometeria o tipo de erro que cometeu com John. A partir de agora, o corao ficaria impenetrvel - sim, embora tivesse apenas 26 anos, passaria
o resto da vida sozinha. O que tornava tudo pior era que John sempre parecera to confivel, to honesto, to gentil. Ela tinha deixado que ele entrasse em sua vida
e - o que era ainda mais doloroso reconhecer - em seus medos e sonhos. No havia a menor chance de se arriscar a ser tratada assim por outro homem - num minuto juras
de amor eterno, no outro...
       E quanto a John, ele merecia Louise, obviamente tinham sido feitos um para o outro j que os dois eram uns tratantes e mentirosos. Mas ela, covarde como era,
no podia voltar para casa at que o casamento tivesse acontecido, at que toda a fofoca tivesse morrido e at que ela no tivesse que enfrentar os olhares de piedade
ou ser objeto de cochichos.
       - Bem, vamos ver o lado positivo - disse Andrea descontrada, ao constatar que Jodie no abandonaria os planos. - Nunca se sabe! Voc pode encontrar algum
na Itlia e se apaixonar loucamente. Os homens italianos so to sexy e sedutores...
       Homens italianos - ou qualquer tipo de homem - estavam fora de seu cardpio a partir de agora, disse a si mesma furiosa. Homens, casamento, amor - queria
distncia disso tudo.
       Zangada, apertou o acelerador. No fazia idia de onde essa pavorosa estrada esburacada a levava, mas no ia dar meia-volta. A partir de agora no haveria
mais contornos em sua vida, no ia mais olhar para trs sentindo-se infeliz ou desesperada, no lamentaria o que poderia ter sido. Ia olhar para a frente.
       David e Andrea tinham sido maravilhosos com ela, oferecendo o quarto de hspedes quando ela vendera o chal para que pudesse dar entrada na casa que ela e
John estavam comprado - o que no tinha sido, olhando em retrospecto, a coisa mais sensata a fazer - mas no podia morar com o primo e a mulher para sempre.
       Por sorte John tinha ao menos devolvido o dinheiro, mas o rompimento do noivado tinha lhe custado o emprego, j que ela trabalhava para o pai dele num negcio
da famlia. John assumiria os negcios quando o pai se aposentasse.
       Ento agora no tinha nem casa nem trabalho, e ia ser...
       Berrou quando a roda da frente bateu em algo duro, o impacto fazendo com que ela fosse jogada para a frente, contra o cinto de segurana. Quanto ainda teria
que dirigir at encontrar alguma forma de vida? Tinha feito reserva num hotel e, segundo seus clculos, j devia ter chegado ao destino. Aonde estava? A estrada
subia to ngreme...
       - Voc, imagino,  a responsvel por isso. Caterina, isso tem o seu toque manipulador, destruidor. - Lorenzo Niccolo d'Este, Duque de Montesavro, acusou a
mulher do primo com desprezo atirando o testamento da av na mesa que os separava.
       - Se sua av levou meus sentimentos em conta quando fez o testamento, ento isso foi porque...
       - Seus sentimentos! - Lorenzo interrompeu mordaz. - E que sentimentos so esses? Os mesmos que a fizeram levar meu primo  morte? - Ele no tentava disfarar
o desprezo que sentia por ela.
       Duas manchas vermelhas de raiva apareceram no rosto perfeitamente maquilado de Caterina.
       - No causei a morte de Gino. Ele teve um ataque cardaco.
       - Claro, graas ao seu comportamento.
       - Melhor tomar cuidado com suas acusaes, Lorenzo, seno...
       - Voc ousa me ameaar? Voc pode ter conseguido enganar minha av, mas no a mim.
       Ele virou-lhe as costas e caminhou pelo piso de pedra do grande hall do Castillo, a fria tornando-o to perigoso quanto um animal selvagem enjaulado.
       - Admita - desafiou-a quando voltou-se para confront-la. - Voc veio aqui deliberadamente, com a inteno de manipular e enganar uma senhora idosa  beira
da morte para atingir seus objetivos.
       - Voc sabe que no tenho a menor vontade de discutir com voc, Lorenzo - protestou. - Tudo que quero...
       - Sei bem o que quer - lembrou-a Lorenzo, frio. - Voc quer os privilgios, a posio e a fortuna que transformar-se em minha esposa lhe dariam... e, por
essa razo, atormentou uma senhora idosa confusa que sabia estar morrendo forando-a alterar o testamento. Se tivesse um pingo de compaixo, um... - Calou-se enojado.
- Mas  claro que no tem, como eu j sabia.
       Seu desprezo furioso fez com que o sorriso desaparecesse dos lbios de Caterina e o corpo ficasse tenso e hostil ao abandonar qualquer pretenso de inocncia.
       - Voc pode me lanar quantas acusaes quiser, Lorenzo, mas no pode provar nada - provocou-o.
       - Talvez no num tribunal, mas isso no altera a veracidade das acusaes. O tabelio de minha av me contou que quando ela o chamou para alterar o testamento,
confidenciou-lhe o motivo de faz-lo.
       Lorenzo viu o brilho de triunfo nos olhos de Caterina.
       - Admita, Lorenzo. Eu superei voc. Se quiser o Castillo - e ambos sabemos que sim - ento vai ter que se casar comigo. No tem escolha. - Riu, jogando a
cabea para trs, expondo o longo pescoo cor de oliva e Lorenzo teve o impulso selvagem de apertar-lhe o pescoo para que ela parasse de rir. Ele queria o Castillo.
Muito. E estava determinado a t-lo. E estava igualmente determinado a no ser obrigado a casar-se com Caterina.
       - Voc disse  minha av que eu a amava e queria que voc fosse minha esposa. Contou que a sociedade condenaria um casamento repentino entre ns dois pelo
fato de ter ficado recentemente viva e de seu marido, Gino, ser meu primo. E voc lhe contou que estava com medo de que, devastado pela paixo, eu me casasse com
voc de qualquer jeito o que me traria desgraa, no foi? - acusou-a. - Voc sabia que minha av era ingnua e desconhecia os hbitos modernos. Voc a levou a acreditar
que confiava a ela toda a preocupao em relao a mim. Contou que no sabia o que fazer ou como me proteger. Depois, a "ajudou" a encontrar uma soluo mudando
o testamento, para que no lugar de herdar o Castillo dela - como o testamento anterior previa - eu s o herdaria se me casasse seis semanas depois de sua morte.
Como voc lhe disse, todo mundo sabe como o Castillo  importante para mim. Depois, como se isso no bastasse, voc premeditou persuadi-la a adicionar que se eu
no me casasse nessas seis semanas, voc herdaria o Castillo. Voc a fez acreditar que ao providenciar essas alteraes, estaria facilitando nosso casamento, porque
eu podia dizer que estava atendendo as exigncias do testamento e no seguindo os ditames de meu corao.
       - Voc no pode provar nada disso. - Ela deu de ombros com desprezo.
       Lorenzo sabia que era verdade.
       - Como j lhe disse, nonna confidenciou os pensamentos ao tabelio - continuou cido. - Infelizmente, quando ele conseguiu me alertar sobre o que estava acontecendo,
j era tarde.
       - Tarde demais... para voc. - Caterina deu um sorrisinho falso.
       - Ento voc admite...
       - E se eu admitir? Voc no pode provar nada - repetiu Caterina. - E mesmo que pudesse, o que ganharia com isso?
       - Vou deixar bem claro para voc, Caterina. No importa o que minha av deixou no testamento, voc nunca vai ser minha mulher. Voc  a ltima mulher no mundo
para quem eu daria meu nome.
       Caterina riu.
       - Voc no tem escolha.
       Lorenzo tinha a fama de ser um adversrio cruel e perigoso. Era o tipo de homem que os outros homens respeitam e temem; o tipo de homem que as mulheres sonham
excitadas em arrastar para a cama. Era tambm um soberbo macho, extremamente bonito e com uma combinao hormonal de macho predatrio arrogante, uma sexualidade
masculina muito perigosa que desfilava com tanta facilidade quanto uma pantera. No era apenas um prmio, mas talvez o mais cobiado prmio entre os solteiros mais
ricos da Itlia. Quando estava na faixa dos vinte, as colunas de fofocas tentavam descobrir que jovem bem nascida ele escolheria para duquesa. Com certeza no foi
por falta de interesse das parceiras em compartilhar sua fortuna e ttulo, bem como desfrutar do prazer sexual de conviver com um homem extremamente sensual que
entrou na casa dos trinta sem assumir nenhum compromisso formal com as mulheres que o perseguiam.
       Lorenzo olhou para a mulher do falecido primo. Ele a desprezava e odiava. Mas, afinal, desprezava a maioria das mulheres. Sua experincia mostrava que todas
queriam lhe dar o que quisesse por causa do que possua, aquilo que era aparente: riqueza, ttulo e um corpo bonito. O que ele realmente era no lhes interessava.
Seus pensamentos, suas crenas, tudo que contribua para formar o homem que Lorenzo d'Este era no chegava perto do que representava seu dinheiro e posio social.
       - Voc no tem escolha, Lorenzo - repetiu baixinho. - Se quer o Castillo vai ter que se casar comigo.
       Lorenzo curvou a boca num desprezo sardnico.
       - Eu tenho que me casar,  verdade - concordou suave. - Mas no est escrito em nenhum lugar que tenho que me casar com voc. Obviamente voc no leu o testamento
da minha av com ateno.
       O rosto ficou plido, os olhos estreitos traam a confuso e incredulidade.
       - O que quer dizer? Claro que li. Fui eu que o ditei! Eu...
       - Repito, voc no leu o testamento de minha av com bastante ateno - disse Lorenzo. - Est vendo, est escrito que devo me casar seis semanas depois do
falecimento dela se quiser herdar o Castillo. No est especificado com quem devo me casar.
       Caterina encarou-o, incapaz de esconder a raiva que escondia os traos bonitos que a tornaram uma modelo famosa na juventude e no seu lugar deixava a feira
de sua verdadeira natureza.
       - No, isso no pode ser verdade. Voc alterou, mudou... voc e aquele tabelio desprezvel. Voc... Onde est isso? Deixe-me ver!
       Ela literalmente jogou-se em cima dele e Lorenzo pegou o testamento que jogara na mesa antes. Agarrando-o, ela leu, o rosto vermelho de raiva.
       - Voc o mudou. Deu um jeito de... Ela queria que voc se casasse comigo! - Estava quase histrica de fria.
       - No. - Lorenzo sacudiu a cabea, o rosto impassvel ao encar-la. - Nonna queria me dar o que acreditava que eu queria. E, com toda certeza, no  voc.
       Quando Lorenzo ficou de p debaixo da luz da tocha antiga, o movimento abrupto de sua cabea refletiu-se e repetiu-se na sombra das chamas.
       O Castillo fora projetado mais como uma fortaleza do que uma casa, bem antes do Duque de Montesavro, na Renascena, t-lo capturado dos inimigos e, em seguida,
adornou as paredes de pedra com as riquezas artsticas do perodo. Ainda possua uma aura sombria e proibida.
       Como Lorenzo.
       Sombras escuras marcavam a estrutura ssea escultural que herdara do prncipe guerreiro, o primeiro da linhagem, e a altura e a largura dos ombros enfatizava-lhe
o corpo. A boca de lbios finos - "dura", como as mulheres costumavam dizer, enquanto imploravam pelo contato da dureza, tentando amaci-la e transform-la em desejo
atravs dos lbios delas. Entretanto seus olhos eram o trao mais interessante. Curiosamente claros para um italiano, eram mais prata do que cinza e pareciam determinados
a derrubar as defesas dos inimigos. O cabelo bem cortado era farto e escuro. O terno, feito a mo, caro. Mas afinal, ele no dependia da herana da falecida av
materna para transformar-se num homem abastado. J era rico por conta prpria.
       Alguns diziam, tola e teatralmente, que para que um homem conseguisse acumular tanto dinheiro tinha que haver alguma sujeira envolvida - algum truque ou o
poder obscuro de certos poderes secretos. Mas Lorenzo no tinha tempo para tamanha estupidez. Fizera fortuna usando simplesmente a inteligncia, fazendo os investimentos
certos no tempo certo e, portanto, aumentando a respeitvel soma que os pais tinham deixado numa fortuna que chegava a muitos, muitos milhes.
       Diferentemente de seu falecido primo, Gino, que tinha permitido que a insacivel esposa o arruinasse financeiramente. A insacivel viva agora, lembrou-se
Lorenzo raivoso. No que Caterina alguma vez tivesse se comportado como uma viva, muito menos como esposa.
       Pobre Gino que a amara tanto. Lorenzo colocou a mo na testa. Transpirava. Seria culpa? Afinal de contas foi alegando ser sua amiga que Caterina tinha inicialmente
chamado a ateno de Gino.
       Lorenzo tinha 18 anos e Caterina 22 quando se conheceram, e ele foi facilmente seduzido por sua determinao. Entretanto no demorou muito para reconhecer
que era uma interesseira. No demorou muito, na verdade, para perceber o primeiro sinal de que ela esperava que ele pagasse pelos favores sexuais com presentes caros.
Como resultado, ele terminou o flerte imediatamente.
       Ele estava na universidade quando ela entrou no corao e na vida do gentil primo Gino e, quando voltou a v-la, ela j usava uma aliana de noivado enquanto
o primo trazia aquela expresso de adorao. Ele tinha tentado avisar o primo quem ela era, mas Gino estava muito envolvido para ouvir e o acusara de estar enciumado.
Que Lorenzo se lembrasse, foi a primeira vez que discutiram. Gino acusara Lorenzo de querer Caterina e ela, espertamente, o manipulou para mant-los separados at
depois do casamento dos dois.
       Mais tarde, Lorenzo e o primo fizeram as pazes, mas Gino nunca deixou de adorar a esposa, embora ela tivesse sido descaradamente infiel e tido uma extensa
lista de amantes.
       - Aonde voc vai? - perguntou Caterina quando Lorenzo girou nos calcanhares e afastou-se.
       Do outro lado da sala, Lorenzo a olhou.
       - Vou encontrar uma esposa, qualquer uma, contanto que no seja voc. Voc poderia ter pedido que me avisassem que minha av estava moribunda, para que eu
pudesse estar com ela, mas voc preferiu no faz-lo. E ns dois sabemos o porqu.
       - Voc no pode se casar com outra pessoa. No vou deixar.
       - Voc no pode me impedir. Ela sacudiu a cabea.
       - Voc no vai encontrar outra esposa. Ou, pelo menos, no o tipo de esposa que gostaria de ter. No em to curto espao de tempo. Voc  muito orgulhoso
para se casar com alguma mocinha sem projeo social. Alm disso... - Fez uma pausa, depois, com olhar provocante, disse meiga: - Se for necessrio, vou contar a
todo mundo sobre o filho que voc me obrigou a tirar.
       - O filho de seu amante - lembrou-a. - No de Gino. Voc mesma me contou.
       - Mas eu vou contar a todo mundo que era seu. Afinal, muitas pessoas sabem que Gino acreditava que voc me amava.
       - Eu deveria ter dito a ele que a desprezava.
       - Ele no teria acreditado. Assim como no acreditaria que o filho no era dele. Como se sente, sabendo que  responsvel por tirar a vida de uma criana,
Lorenzo?
       Ele deu um passo na direo dela, um olhar de tamanha fria que ela correu para a porta, abrindo-a e escapando.
       Lorenzo soltou um palavro entre os dentes e voltou para a mesa onde deixara o testamento da av.
       Tinha ficado louco de fria quando o tabelio finalmente conseguira entrar em contato com ele para contar seus medos e como conseguira impedir que Caterina
atingisse seu objetivo, removendo-lhe o nome do testamento. Assim, Lorenzo teria que se casar para herdar o castelo, sem especificar que teria que ser com Caterina.
       O tabelio, quase to idoso quanto a av, pedira desculpas a Lorenzo com medo de que tivesse agido mal, mas Lorenzo tranqilizou-o. Sem a interferncia do
tabelio, Caterina o teria prendido, inteligentemente, numa armadilha. Ela estava certa quanto a um detalhe. Ele queria o Castillo. E pretendia consegui-lo.
       Entretanto, por ora, tinha que esquecer o castelo antes que fizesse alguma coisa de que pudesse arrepender-se depois, refletiu enquanto atravessava o ptio
e respirava o ar puro, graas a Deus livre daquele perfume forte de Caterina.
       CAPTULO DOIS
       Precisava desistir e fazer o retorno que tinha jurado no fazer, admitiu zangada consigo mesma. No fazia idia de onde estava e a luz da lua iluminava um
terreno to deserto que comeava a se sentir irritada. De um lado um despenhadeiro, do outro um rochedo.
 sua frente podia ver que a estreita estrada se alargava. Determinada, seguiu nessa direo e comeou a manobrar o veculo para poder fazer a curva.
       De repente, ouviu um barulho alto e as rodas traseiras do carro comearam a girar, derrapando. Alarmada, colocou o carro em ponto morto e saltou. O alarme
transformou-se em desespero ao constatar que uma das rodas traseiras estava presa num buraco fundo e o pneu parecia furado.
       E agora, o que fazer? Obviamente no podia dirigir esse carro.
       Voltou para o carro, massageando a perna que doa. Estava cansada, faminta e sentindo-se infeliz. Abriu a bolsa, pegou o celular e a carteira onde colocara
a papelada da viagem e do aluguel do carro.
       Quando pegou o telefone, os olhos se arregalaram de desespero. O telefone estava ligado, mas sem sinal. No s isso: ao tentar discar o nmero, o telefone
fez um rudo e a luz do visor apagou. Devia ter ficado ligado e a bateria tinha descarregado. Como pde ser to estpida? Precisava de ajuda, mas o que faria? Ficar
ali e esperar que algum passasse? No tinha visto sinal de vida, quanto mais de algum carro, por quilmetros. Andar? Para onde? Caminhar centenas de quilmetros
at a ltima cidade por onde tinha passado, ao que parecia horas atrs? A dor na perna estava piorando. Deveria subir as montanhas? Sentiu um leve arrepio.
       No vira outro motorista durante todo o tempo em que esteve na estrada, mas algum devia us-la pois podia ver marcas de pneus. Olhou para cima, em direo
s montanhas, e como se o desespero tivesse produzido um milagre, viu luzes distantes de outro carro vindo em sua direo.
       O alvio a deixou fraca.
       Lorenzo apertou o acelerador da Ferrari preta, colocando no possante carro toda a raiva. Dirigia a uma velocidade que exigia o mximo de sua habilidade, enquanto
percorria a estrada sinuosa  sua frente.
       Caterina tinha sido muito esperta, manipulando sua av daquele jeito. Se ele estivesse presente... mas no estava. Estava no exterior, visitando o cenrio
do ltimo desastre mundial, ajudando a encontrar maneiras de aliviar a misria daqueles que tinham sido atingidos. Trabalhava como voluntrio junto ao governo, recolhendo
fundos e providenciando ajuda administrativa e especialistas.
       Devido  gravidade dessa crise em particular, no conseguira voltar  Itlia para o funeral da av, embora tivesse conseguido encontrar tempo em sua atribulada
agenda para ir  igreja e juntar suas preces  dos outros parentes em luto.
       Uma mulher gentil e nada sofisticada, que lhe contara que quando menina desejava ser freira e que morrera dormindo, placidamente.
       O Castillo fora herdado do primeiro marido que, como era costume nos crculos aristocrticos, era primo em segundo grau de seu segundo marido, o av de Lorenzo.
       Ele sempre tinha sido o favorito dos dois netos. Passava as frias com a av depois do divrcio dos pais e ficara com ela quando a me anunciou que se casaria
com o amante - um homem que Lorenzo detestava.
       Nunca havia sido capaz de perdoar a me. Nem mesmo quando ela morreu. Seu pai j falecera. O comportamento da me tinha lhe aberto os olhos para o jeito enganador,
interesseiro do sexo feminino e a determinao de colocar-se em primeiro lugar, sempre clamando uma santidade que no possua. A me dele sempre insistira que a
deciso de se divorciar do pai dele havia sido tomada para poup-lo de crescer num lar infeliz. Mentira,  claro. Seus sentimentos tinham sido a ltima coisa com
que ela se preocupara, ao se atirar nos braos do amante e abandonar marido e filho.
       A Ferrari reclamou devido s pssimas condies da estrada. Lorenzo ignorou as queixas e mudou de marcha, entrando numa curva fechada. Soltou um palavro
ao ver, bem  sua frente, um carro bloqueando a estrada e uma jovem parada ao lado.
       Jodie se assustou ao ouvir o barulho dos freios e tossiu por causa da poeira levantada pelos pneus da Ferrari quando ela freou, a apenas centmetros da lateral
do carro alugado. Instintivamente, esticou-se, em vez de encostar-se no carro, no momento em que viu o outro carro.
       Que louco dirigia daquele jeito numa estrada como essa, e no escuro? - perguntou-se trmula, segurando a porta do carro para apoiar-se quando o viu saltar
do carro e vir na sua direo.
       - Disgraziata! - berrou, seguido de uma torrente de palavras em italiano. Mas no ia se deixar acovardar por causa dele - ou de qualquer outro homem - novamente.
       - Quando terminar... - interrompeu-o, a prpria voz to hostil quanto a dele. - Pra comear, no sou italiana. Sou inglesa. E...
       - Inglesa? - Parecia que nunca tinha ouvido a palavra antes. - O que est fazendo aqui? Por que est nessa estrada?  uma estrada particular e o nico destino
 o Castillo. - As perguntas lhe eram atiradas como se fossem facas afiadas.
       - Peguei o caminho errado - defendeu-se. - Estava tentando voltar, mas uma roda ficou presa e agora o pneu est furado.
       Era muito branca e magra. Os olhos enormes sobressaam no tringulo do pequeno rosto exausto. O cabelo liso estava puxado para trs. Parecia ter uns 16 anos
- uns 16 mau-nutridos anos, pensou Lorenzo, enquanto a examinava dos ps  cabea com um olhar masculino experiente que desceu dos ombros cados ao formato dos seios
bem pequenos,  cintura e quadris estreitos at o surpreendente comprimento das pernas, comparado a um corpo to mido. Estava usando salto alto ou eram realmente
to compridas quanto pareciam?
       - Quantos anos voc tem? - perguntou.
       Quantos anos ela tinha? Mas por que queria saber?
       - 26 - respondeu, levantando o queixo enquanto o encarava, determinada a no se deixar intimidar; apesar do fato de estar ciente de que ele era to maravilhoso
que ela queria correr e se esconder antes que ele percebesse o quo pateticamente inferior como mulher ela era em comparao a ele como homem. Automaticamente a
mo tocou a perna. Estava realmente doendo.
       26! Lorenzo franziu o cenho quando olhou para as suas mos. Nenhum anel.
       - Por que est aqui sozinha?
       Jodie comeava a achar que j agentara o suficiente.
       - Porque estou. No que isso lhe diga respeito.
       - Pelo contrrio, me diz respeito sim, j que voc invadiu minha propriedade.
       A propriedade dele?  claro que era a terra dele; era to pouco hospitaleira quanto ele.
       - E o que quer dizer com estar sozinha? Com certeza voc tem um... um marido, um amante. Um homem, um companheiro.
       Jodie riu, amarga. Ele no sabia que tocava em seu ponto fraco.
       - Pensei que tivesse, mas, infelizmente para mim, ele decidiu se casar com outra. Isso - fez um gesto em direo  terra e ao carro - devia ser nossa lua-de-mel.
Mas agora...- Sofria s em pronunciar as palavras, mas, estranhamente, sentia uma espcie de alvio ao demonstrar as emoes, em vez de ter que mant-las trancadas,
como tinha que agir em casa.
       - E agora? - desafiou-a Lorenzo. - Agora voc est viajando sozinha e procurando algum para substitu-lo em sua cama? Os resorts da costa so o melhor local
para isso. No as montanhas.
       Jodie prendeu a respirao, furiosa.
       - Como ousa dizer isso? Com certeza no estou procurando ningum, muito menos para substitu-lo. Na verdade, essa  a ltima coisa que quero fazer. Nunca
deixarei outro homem entrar na minha vida e me magoar. Nunca. A partir de agora pretendo viver sozinha. - Palavras corajosas, mas acreditava em cada uma delas!
       Lorenzo franziu o cenho ao perceber-lhe a determinao.
       - Voc ainda o quer tanto assim?
       - No! - disse agressivamente, sem parar para pensar por que ele estava perguntando algo to pessoal, - No o quero de jeito nenhum.
       - Ento por que est ... fugindo?
       - No estou fugindo! Apenas no quero estar l para v-lo casar-se com outra - acrescentou na defensiva, ao ver o jeito que ele a olhava. - Especialmente
quando ela  tudo que no sou. Excitante, glamorosa, sexy... - Jodie levantou a mo para limpar as lgrimas que de repente encheram-lhe os olhos.
       No fazia idia do motivo de estar dizendo tudo isso a um estranho, admitindo para ele coisas que no admitira nem para si mesma.
       -  o homem que determina se uma mulher  ou no "sexy", como voc coloca - Lorenzo decretou, sentindo-se estranhamente ntimo de Jodie. - Um amante experiente
tem o poder de fazer com que um boto de flor se abra.
       Sentiu o estmago latejar ao compreender o significado da declarao incrivelmente arrogante.
       - No que muitas jovens sejam botes fechados hoje em dia - acrescentou Lorenzo ironicamente, enquanto observava o rubor no rosto abatido de cansao.
       - As mulheres modernas lutam pelo direito  prpria sexualidade - respondeu Jodie vigorosamente. - Elas no...
       - No me parece que voc tenha sido muito eficiente ao lutar pela sua - disse Lorenzo zombeteiro. - Na verdade, se fosse emitir um julgamento a respeito,
suspeitaria que sua experincia  extremamente limitada; caso contrrio, no teria perdido seu homem para outra mulher.
       O machismo ao mesmo tempo surpreendeu-a e enfureceu-a. Mas foi forada a admitir que no-existente seria a palavra mais apropriada para definir sua habilidade
sexual. Segurou a exclamao de assombro, aliviada por ele no ter contribudo para sua humilhao fazendo-a admitir que ainda era virgem. No por opo. Ela ficara
to ferida que temeram por sua vida. Passou meses no hospital, depois do acidente de carro no qual os pais faleceram.
       - Motivo pelo qual, supostamente, voc confunde atrao fsica com amor... uma palavra que vocs usaram tanto que hoje no vale nada - continuou Lorenzo de
modo grosseiro.
       - Meu sexo? - Jodie aceitou o desafio, os olhos cor-de-ouro faiscando de indignao at se transformarem em mbar escuro.
       - Isso, seu sexo! Voc nega que as mulheres tornaram-se adlteras, como acusavam, no passado, os homens de ser? Que a razo de se casarem est baseada no
prprio egosmo e necessidade que vm antes das necessidades de qualquer outra pessoa, mesmo dos filhos?
       A amargura perceptvel na voz chocou Jodie a tal ponto que se calou. Mas se recuperou e defendeu o sexo feminino:
       - Se essa  sua experincia com as mulheres, ento talvez seja sua culpa.
       - Minha? Ento voc acredita que se uma criana  abandonada pela me a culpa  da criana? Tpico das mulheres... o que apenas confirma o que acabei de dizer!
       - No, no foi isso o que quis dizer - comeou Jodie.
       Mas era tarde demais. Ele ignorava suas palavras e perguntava autoritrio:
       - Qual seu nome?
       - Jodie. Jodie Oliver. E o seu? - perguntou com a mesma firmeza.
       Pela primeira vez, desde que ele tinha parado o carro, ela sentiu uma momentnea hesitao nele, antes de dizer friamente:
       - Lorenzo.
       - O Magnfico? - retrucou e depois ficou vermelha de vergonha quando ele a encarou.
       O Magnfico. Era assim que Gino o chamava para provoc-lo, alegando que no era de se estranhar que ele tivesse tanto sucesso com as mulheres, j que tinha
o mesmo nome de um dos mais famosos governantes da famlia Mediei em Florena.
       - Voc conhece a histria dos Mediei?
       - Um pouco - disse indiferente, de sbito no querendo mais conversa com o estranho. Comeava a se sentir muito cansada e fraca. - Escute, preciso entrar
em contato com a locadora de automveis, mas meu celular no est funcionando. Voc poderia...? - Com certeza ia passar pela vila por onde ela tinha passado - no
havia outro caminho. Se ele pudesse lhe dar uma carona, poderia encontrar um quarto para passar a noite e ligar para o pessoal da locadora.
       - Se eu poderia o qu? - perguntou. - Ajudar voc? Claro. - Ela tinha comeado a sentir alvio quando ele acrescentou suavemente: - Desde que voc concorde
em me ajudar.
       Na mesma hora sinais de aviso enviaram-lhe mensagens, causando-lhe tenso.
       - Ajudar voc? - repetiu, cautelosa.
       - Sim. Preciso de uma esposa.
       Ele era louco. Completa e totalmente insano. Estava presa numa estrada deserta com um maluco.
       - Voc... quer que eu ajude voc a encontrar uma esposa? - conseguiu perguntar, como se essa fosse a proposta mais natural do mundo.
       A boca de Lorenzo estreitou-se, e ele lanou-lhe um olhar zombeteiro.
       - No seja ridcula. No quero que me ajude a encontrar uma esposa. Quero que voc se torne minha esposa - disse frio.
       Ela estava sendo ridcula?
       - Voc quer que eu seja sua esposa? - repetiu lentamente. - Desculpe, mas...
       - Voc no quer se casar. J sei... - interrompeu-a. - Mas esse no vai ser um casamento normal. Preciso de uma esposa nas prximas semanas. Tenho to pouca
vontade de ter uma esposa quanto voc de ter um marido... embora por motivos distintos. Por isso, me parece que eu e voc podamos chegar a um acordo mtuo que nos
beneficiasse. Eu consigo a esposa que preciso e voc, depois que estivermos casados h um ano, consegue um divrcio e... que tal um milho de libras?
       Jodie piscou e sacudiu a cabea, achando que no tinha ouvido bem.
       - Voc quer que eu concorde em me casar com voc e fique com voc por um ano?
       - Voc vai ser paga pelo tempo... apenas pelo tempo e pelo papel de minha esposa que ter que desempenhar. Sua presena em minha cama no faz parte do acordo.
       - Voc  louco. - Jodie foi direta. - No sei nada sobre voc e eu...
       - Voc sabe que estou disposto a pagar um milho de libras para que seja minha esposa. Quanto ao resto... - Ele sacudiu os ombros largos de forma arrogante
e lhe disse seco: - Depois explico tudo que precisa saber.
       Tinha motivos para estar morrendo de medo. Mas, apesar do fato de estar na presena de um louco, por alguma razo a sensao mais forte que sentia no era
medo mas estupefao. E uma certa sensao de que algum l em cima escutara seus desejos secretos e decidira dar uma mozinha. Ali estava a oportunidade - o homem
- por quem seu orgulho ansiava...
       Estava louca? Com certeza no podia estar pensando em aceitar essa proposta ridcula...
       - Se quer tanto uma esposa, com certeza deve haver algum...
       - Muitos "alguns" - interrompeu-a Lorenzo irnico. - Infelizmente, todas vo querer o que no quero dar...  incrvel a facilidade com que as pessoas do
seu sexo juram amor eterno quando dinheiro e posio social esto envolvidos.
       - Voc quer dizer que  visado pelas alpinistas sociais? - Era bvio, no apenas pelo carro e roupas, mas acima de tudo pelas maneiras, que ele era riqussimo.
-  por isso que quer se casar comigo? Porque um casamento falso as manteria afastadas?
       - No exatamente.
       - Ento por qu?
       - Foi uma condio imposta por minha falecida av no testamento. Eu devo me casar um certo tempo aps seu falecimento ou perder... algo que significa muito
para mim.
       Jodie franziu a testa.
       - Mas por que cargas d'gua fez isso? Quero dizer, ou ela queria que voc herdasse o que quer que seja ou no.
       - A situao  mais complexa e envolve... outros detalhes. Vamos dizer que minha av foi persuadida a fazer algo, achando ser para meu bem, por algum com
interesses escusos.
       Esperou que ele continuasse, mas ele estendeu a mo.
       - Me d as chaves do carro e...
       Ela balanou a cabea leve, mas decididamente.
       - No. - Se ela no estivesse firmemente determinada a manter os homens afastados de sua vida, esse homem e sua inacreditvel arrogncia seriam o suficiente
para no querer saber mais de homens, decidiu zangada.
       Mas, ao mesmo tempo, uma insidiosa tentao tinha comeado a tomar forma em sua mente. E se ela concordasse, sob a condio que Lorenzo a acompanhasse ao
casamento de John e Louise? A cidade inteira fora convidada, logo, dois convidados a mais no representariam um problema... e, admitia, uma parte de si ansiava por
estar l, mostrando ao mundo e aos recm-casados que ela no apenas pouco se importava com a traio deles, mas tinha um novo companheiro. No tem um ditado que
diz que "Viver bem  a melhor vingana"? E que melhor vingana para uma noiva abandonada do que aparecer com um homem muito mais bonito e adequado? Um homem, que,
alm de tudo, desejava desesperadamente casar-se com ela!
       Foi arrancada desse retorno mental triunfal  cena de sua humilhao pela voz arrogante de descrdito de Lorenzo.
       - No?
       Era ridculo que ela considerasse fazer algo to fora de propsito. Isso s confirmava o efeito que poucos minutos na companhia de um homem como Lorenzo causava.
No ia ouvir as exigncias de seu orgulho, deixar que o orgulho e a conscincia declarassem guerra entre si com uma troca indigna de acusaes. Tentou manter a sensatez
e disse a Lorenzo com firmeza:
       - Mesmo algum to... to arrogante e acostumado a conseguir o que quer, como voc parece ser, deve perceber que o que est sugerindo no ...
       - Um milho no  o suficiente?  isso o que est tentando dizer?
       Ficou ruborizada.
       - O dinheiro no tem nada a ver com isso. - O olhar cnico que ele lhe deu fez com que ela explodisse de raiva. - No estou  venda. Nem para John e certamente
no para voc.
       - John?
       Ele aproveitou sua confisso e agora a olhava como um enorme gato astuto devia olhar um rato que se divertia em atormentar.
       Mas ela no era um rato e no ia ser ameaada ou atormentada por nenhum homem novamente. Levantou a cabea e disse fria:
       - Meu ex-noivo. Ele tambm me ofereceu dinheiro, mas estava fazendo isso por culpa, pois no queria se casar comigo, e no como um suborno porque queria casar-se.
Queria que eu rompesse o noivado para que ningum o acusasse de me abandonar. Obviamente vocs dois compartilham da mesma lgica masculina. Como voc, ele achou
que podia comprar o que quisesse, independente do que eu pudesse sentir. - Apesar de sua tentativa de aparentar no se sentir afetada pelo que estava revelando,
um misto de tristeza e cinismo turvaram-lhe os olhos. A boca retorceu-se ligeiramente ao acrescentar: - De certa forma, suponho que ele me fez um favor. Saber que
ele me tinha em to baixa conta que achava poder pagar para terminar o relacionamento me fez perceber que eu ficaria melhor sem ele.
       - Mas, apesar disso, voc ainda o deseja.
       A afirmao, dita sem nenhuma emoo, fez com que seu corao acelerasse.
       - No! - respondeu imediatamente. - Eu no o desejo.
       - Ento porque fugiu, seno pelo medo do que ainda sente por ele?
       - Eu no fugi! Estou tirando frias e quando voltar... - O movimento involuntrio de baixar os ombros, ao contemplar a idia de voltar para casa, dizia mais
do que ela percebia. Quando voltasse - o qu? No tinha um emprego para voltar. No agora. Nem casa - vendera o chal, e mesmo que no o tivesse vendido, tinha dvidas
se gostaria de voltar a viver ali, com todas as lembranas de falsa felicidade. Mas, poderia voltar com a cabea erguida e nos braos de um homem que ela podia afirmar,
com toda certeza, iria se tornar seu marido, lembrou-se.
       E depois? Ele j tinha avisado que o casamento duraria um ano.
       Depois, sacudiria os ombros e diria, como tantas outras, que no tinha funcionado. Era muito menos vergonhoso do que ser tachada de rejeitada.
       - Num perodo de doze meses voc pode voltar com um milho de libras na conta bancria - ouviu Lorenzo dizer, como se lesse sua mente.
       Era to tentador concordar. E ela teve raiva por ele t-la colocado numa posio em que se sentia tentada. No tinha prometido jamais voltar a ser manipulada
por um homem? Rangendo os dentes, Jodie voltou atrs quanto  possibilidade de ceder.
       - Se voc realmente quer uma esposa, ento por que no tenta encontrar uma sem usar o dinheiro? Algum que queira se casar com voc por amor, ou por acreditar
ter encontrado o homem que corresponde a seu amor, um homem que possa respeitar e confiar e... - Ela viu a maneira como ele a olhava e balanou a cabea. - Ah, para
que perder tempo? Homens como voc e John so todos iguais. Ele apenas valoriza a mulher que possa exibir, o tipo de mulher que faa com que os outros homens o invejem
e voc s quer o tipo de mulher que possa comprar, para assim poder control-la, assim como o relacionamento de vocs. Bem, no sou esse tipo de mulher. E no, no
vou me casar com voc.
       Quando afastou-se dele, Lorenzo podia sentir a raiva percorrer-lhe. Ela o estava recusando? Essa... essa magricela, essa turista sem eira nem beira - uma
mulher que tinha sido rejeitada publicamente pelo homem que tinha prometido se casar com ela... Ser que no percebia o que ele lhe oferecia e a sorte que lhe cara
do cu? Casar com ele a transformaria instantaneamente de uma mulher rejeitada na esposa de algum rico o suficiente para comprar o ex-noivo dela uma centena de
milhares de vezes. Ela iria de pronto ser elevada a um patamar social com o qual a maioria das mulheres sonhava, seria cortejada pelos famosos e ricos e, se fosse
inteligente o suficiente para capitalizar o que ele lhe daria quando o casamento terminasse, poderia encontrar um novo marido. Qualquer homem adoraria se casar com
uma mulher que tivesse sido escolhida por um homem como ele. Tudo que tinha a fazer para transformar por completo sua vida era concordar em ser sua esposa.
       E, no entanto, em vez de reconhecer a boa sorte, ousava passar-lhe um sermo! Bem, no perdia nada. No teria durado um dia, nem mesmo doze horas, depois
que Caterina colocasse as garras nela e ele no era tolo de perder tempo com ela. Podia dirigir at a costa e encontrar uma dzia de mulheres, em menos de uma hora,
que agarrariam a oportunidade que ela tinha dispensado.
       - timo! - Virou as costas e caminhou em direo  Ferrari.
       Ele a estava deixando ali? No podia... no faria isso! Os olhos de Jodie se arregalaram de choque ao v-lo afastar-se.
       - No, espere! - gritou, correndo atrs dele, arfando de dor, a raiva dando lugar ao medo, atenuado apenas quando ele parou e se virou. - Preciso entrar em
contato com a locadora e avisar o que aconteceu.
       - No vo ficar contentes com o fato de voc ter estragado o carro. Espero que tenha trazido bastante dinheiro - avisou-a com frieza.
       - Fiz seguro - protestou, mas sentiu um n no estmago ao lembrar-se do primo avisando-a sobre os problemas que enfrentaria caso se envolvesse num acidente.
       - Duvido que isso v benefici-la, especialmente quando eu informar as autoridades que voc estava dirigindo numa estrada particular ou seja, colocou em risco
a prpria vida e a minha tambm. Vai precisar de um timo advogado, o que custar bem caro.
       - Mas isso no  verdade! - protestou. - Voc nem estava aqui quando...
       A voz sumiu ao ver o olhar dele.
       - Voc est tentando me assustar... e me chantagear! - ela o acusou.
       Ele deu de ombros e continuou a andar at o carro. Ela o olhou abrir a porta, enquanto as emoes se transformavam numa fria impotente. Ele era o mais odioso,
o mais detestvel homem do mundo: arrogante, egosta, a ltima espcie de homem com quem gostaria de se casar, no importa o motivo. Mas uma voz lgica e prtica
martelava que era tarde da noite e ela estava a quilmetros de distncia de qualquer lugar, numa estrada particular, totalmente dependente da boa-vontade de um homem
prestes a abandon-la ali.
       Ele tinha ligado o motor e dava a partida. Foi tomada de pnico. Comeou a correr em direo ao carro. Arfava de dor ao aproximar-se da porta do lado do motorista
e bateu no vidro.
       Sem demonstrar nenhuma emoo, Lorenzo abriu a janela.
       - Est bem, aceito - disse, sem pensar. - Me caso com voc.
       Ele a olhava to impassvel que achou que ele tinha mudado de idia. O corao comeou a bater acelerado, fazendo-a sentir-se ligeiramente enjoada.
       - Ento concorda em se casar comigo?
       Jodie acenou que sim e soltou um suspiro de alvio quando ele abriu a porta do carona e disse bruscamente:
       - Me d as chaves e espere aqui enquanto pego suas coisas.
       A noite estava quente, mas sentia calafrios devido  ansiedade e  exausto. Os dedos tremeram ao contato da mo impessoal que ele estendeu para pegar as
chaves do carro. Sentiu um arrepio indesejado no brao, o que a fez afastar-se. Ele tinha mos compridas e elegantes, dedos finos e fortes - diferente de John que
tinha as mos meio gorduchas e dedos curtos. A conscincia de que o roar daquelas mos no corpo de uma mulher proporcionaria um perigoso grau de prazer sensual
assustou-a.
       Lorenzo franziu o cenho ao sair da Ferrari e abriu o porta-malas do carro alugado. A reao dela havia demonstrado uma inexperincia sexual que ele julgava
no mais existir. Na verdade, a ltima vez que presenciara uma mulher adulta reagir assim ao toque casual de um homem tinha sido na derradeira visita  av quando
sentaram-se juntos para assistir um daqueles filmes antigos em preto-e-branco que ela adorava. Ele vivia num mundo povoado por pessoas sofisticadas, experientes,
ricas e aristocrticas. Um mundo guiado pelo cinismo, ambio, inveja e interesses pessoais. O poder no passava de mo em mo atravs da bondade, como ele tivera
oportunidade de aprender. Jodie Oliver no sobreviveria um ms nesse mundo.
       Afastou os pensamentos. Sua sobrevivncia no lhe dizia respeito. Tinha outros assuntos, outro tipo de sobrevivncia com que se preocupar e ela era simplesmente
o instrumento a ser usado para conseguir seus objetivos. Se desejasse casar-se com ela de verdade... A testa ficou ainda mais franzida. Que tipo de pensamento era
esse? No tinha vontade de se casar com ningum, muito menos com uma jovem magra e melanclica que trazia "corao partido" escrito na testa.
       Deu uma olhada na pequena mala que tirara do porta-malas e verificou o interior do carro.
       - Quanto tempo voc disse que pretendia ficar longe de casa? - perguntou enquanto carregava suas coisas para a Ferrari.
       Jodie ficou ruborizada pois entendeu o motivo da pergunta.
       - Tenho o suficiente para atender minhas necessidades - disse na defensiva, acrescentado com dignidade: - E existem lavanderias, voc sabe. - No ia dizer
a ele que escolhera aquela pequena maleta de rodinhas porque ela era leve e a ltima coisa que pretendia, ao fazer a mala, era levar todas as coisas bonitas que
comprara para a lua-de-mel.
       Havia uma intimidade desconcertante em estar num carro desses com um homem que era to msculo.
       O cheiro do couro fez com que ela se lembrasse de uma tarde em companhia de John, quando ele tinha ido comprar um carro novo. Tinham visitado lojas e mais
lojas enquanto ele admirava os carros top de linha. Mas nenhum deles, no importa o quanto custasse, chegava nem perto do luxo desse, pensou, exalando o sutil perfume
amadeirado da colnia masculina combinada com o cheiro sensual daquele homem.
       Quando finalmente terminou de absorver as mensagens com as quais seus sentidos a bombardeavam, Lorenzo tinha dado meia-volta.
       - Aonde estamos indo? - perguntou insegura.
       - Para o Castillo.
       O Castillo. Soava incrivelmente grande. Mas cinco minutos depois, quando ela viu os contornos acima da rocha, decidiu que a aparncia era mais brbara do
que grande, como se fizesse parte de um outro perodo menos civilizado. Um perodo em que o homem podia pegar o que quisesse simplesmente porque assim havia decidido.
Sem dvida, um perodo perfeito para o homem sentado a seu lado, decidiu de mau-humor.
       Entraram no Castillo atravs de uma entrada em arco estreita, to evocativa da Idade Mdia que Jodie teve que piscar para afastar as imagens de homens envergando
cotas de malhas de ferro com armas e arautos anunciando a chegada deles.
       O ptio vazio estava iluminado por castiais de metal lanando sombras que se moviam contra as paredes imponentes de pedra com suas janelas estreitas.
       - Que lugar extraordinrio! - exclamou apreensiva.
       - O Castillo  uma relquia de um tempo em que os homens construam fortalezas no lugar de casas. Aviso que  to pouco hospitaleiro dentro quanto fora.
       - Voc mora aqui? - No pde evitar o horror na voz.
       - No; minha av morava.
       - Ento onde...? - comeou Jodie. Parou hesitante quando viu o jeito como ele apertava os lbios. Era bvio que ele no gostava de tantas perguntas. Abriu
a porta do carro e ela franziu o nariz diante do cheiro de algo queimando.
       - Tem algo pegando fogo.
       -  apenas a mistura de madeira e piche usada nos castiais. Depois de um tempo voc se acostuma - acrescentou.
       Depois de um tempo? Isso significava que ela ia morar ali? Sem eletricidade?
       Como se lesse sua mente, Lorenzo informou:
       - Minha av preferia um estilo de vida  antiga. Felizmente, consegui persuadi-la a instalar um gerador de eletricidade.
       Quando se pensava num castelo italiano, vinha  mente algo sado de um conto de fadas, mas esse lugar no era nada disso. Ficava arrepiada s de olhar as
paredes de granito.
       - Venha...
       Tanto tempo sentada deixara-lhe a perna enrijecida. Jodie sentiu o rubor no rosto ao ver que Lorenzo segurava a porta do carro, impaciente, para que ela saltasse.
A dor aguda na perna, quando finalmente conseguiu sair, fez com que mordesse com fora o lbio para evitar trair o que sentia. John odiava qualquer coisa que chamasse
a ateno para sua enfermidade, insistindo para que sempre usasse jeans ou calas compridas e escondesse a finura e cicatrizes da perna.
       "Se voc usar calas ningum vai saber que tem algo errado com voc", dissera mais de uma vez. Podia sentir a garganta fechando por causa das lgrimas. Queria
to desesperadamente ouvi-lo dizer que no se importava com o que vestisse, porque a amava tanto que cada parte de seu corpo era preciosa para ele... Mas,  claro,
os homens no eram assim. Louse tinha dito a mesma coisa quando explicou a Jodie porque John preferia ela.
       - O problema, queridinha,  que homens no gostam de deformaes. Faz com que se sintam desconfortveis. E mais, querem uma mulher que possam exibir... no
uma pela qual tenham que se desculpar.
       - Voc quer dizer que alguns homens so assim - corrigiu-a com tanta dignidade quanto possvel.
       - A maioria dos homens - insistiu Louise, antes de acrescentar asperamente: - Afinal, quantos homens, alm de John, quiseram ao menos sair com voc? Pense
nisso. E no vamos esquecer - acrescentou, para sublinhar sua superioridade - qualquer homem se preocupa com o que vai ter que enfrentar no futuro, tendo uma mulher
com problemas de sade, nem que seja do ponto de vista financeiro.
       - No tenho problemas de sade - objetou Jodie. - O hospital me deu alta...
       - Porque no podiam fazer mais nada. Voc mesma me disse. Sua perna nunca vai voltar a ser como era. Voc se cansa s de andar um pouco... Imagine que terrvel
seria para o pobre John se, digamos, em dez anos, voc precisasse de uma cadeira de rodas? Como ele ia lidar com isso? Com os negcios prosperando, John precisa
de algum para somar, no para subtrair. Voc no devia ser to egosta, Jodie. John e eu estamos tentando tornar a situao o menos dolorosa possvel para voc.
       O "John e eu" a fizera chegar ao limite. Jodie explodira e dissera  ex-amiga exatamente o que pensava dela e de John, terminando com:
       - Odiaria me comprometer com um homem to superficial quanto ele. Honestamente, Louise, voc me fez um grande favor. Se no fosse por voc, poderia acabar
me casando com John, sem saber o quanto ele  fraco e pouco confivel. Voc obviamente no d tanta importncia a isso quanto eu. Mas eu tomaria cuidado se fosse
voc. Afinal, no vai ser sempre jovem e glamorosa, certo? E j que voc mesma disse que a aparncia  to importante para John, vai ter que conviver com o fato
de que um dia ele pode troc-la por algum mais jovem e mais bonita.
       Tremia da cabea aos ps ao afastar-se de Louise. E quando John apareceu, menos de uma hora depois, acusando-a de ter aborrecido Louise, ela no sabia se
devia rir ou chorar. Acabou rindo. De alguma forma pareceu ser a melhor opo.
       Foi ento que saiu e comprou a mais curta minissaia que encontrou. O acidente no fora culpa dos pais e ela lutara muito tempo e com garra para superar os
ferimentos. A partir de agora, decidira, ia mostrar as feridas com orgulho e nenhum homem voltaria a sugerir que cobrisse as pernas por causa delas.
       Entretanto, para ficar mais confortvel na viagem, usava uns jeans velhos e desbotados que a faziam parecer totalmente deslocada ao lado de Lorenzo em seu
terno magnificamente bem cortado, pensou, quando ele a conduziu atravs do ptio e dentro do hall cavernoso, com a mo apoiada firme no meio de suas costas.
       CAPTULO QUATRO
       O aposento em que entraram era mobiliado com vrias peas numa madeira escura trabalhada. Um braso tinha sido talhado acima da imensa lareira. O tapete parecia
gasto e surrado e ela podia ver uma marca na mesa empoeirada no meio da sala onde algo tinha sido atirado com tamanha fora que deixara um rastro.
       Uma porta no fundo da sala foi escancarada e surgiu uma mulher. Imediatamente Jodie esqueceu o ambiente e examinou-a. Alta e bem-cuidada, era o prottipo
da italiana rica e elegante. O cabelo escuro estava puxado num coque para revelar os traos perfeitos do rosto. Olhos escuros fitavam Lorenzo com um triunfante deboche
possessivo - o mesmo tipo de olhar de mulher predadora que Jodie vira nos de Louise quando olhou John. A mulher no a tinha visto pois estava na sombra. Quem era
ela?
       Uma sensao de desconforto invadiu-a; a conscincia de guas escuras e turvas que indicavam as perigosas correntes escondidas que podiam sug-la para as
profundezas geladas, se no fosse cuidadosa. Instintivamente sentiu que Louise e essa mulher eram idnticas e essa conscincia foi o suficiente para despertar-lhe
lembranas dolorosas. Olhou para Lorenzo. Ele parecia relaxado, mas podia sentir-lhe a tenso pelo aumentar da presso dos dedos em suas costas. Havia algo no ar
- mas o qu? Tantas perguntas destinadas a permanecer sem resposta, refletiu Jodie, enquanto via a boca fina e o delicado arfar das narinas. Um enorme diamante que
chegava a cegar brilhou quando a mulher levantou uma das mos para coloc-la no profundo decote do caro vestido preto, num gesto deliberado de seduo. Que homem
poderia resistir se seguisse com o olhar o brilho escarlate das unhas compridas enquanto repousavam no vale entre os seios fartos e perfeitos?
       O vestido justo mostrava uma cintura to fina que calculou que ela s podia estar usando uma cinta muito apertada, e os quadris em curvas arredondadas. Um
par de longas, bronzeadas e bem torneadas pernas, e os ps tinham unhas pintadas de escarlate adornados com um par de sandlias de tiras de saltos to altos e to
delicados como Jodie nunca tinha visto. Parecia algum prestes a entrar no mais sofisticado e luxuoso ambiente do mundo, e no ali naquela fortaleza no meio do nada.
       Um olhar de triunfo iluminou o rosto da mulher italiana. Mas os olhos castanhos no tinham o menor calor e quando andou, falando rpido, a voz soou rspida
e ligeiramente desafinada. Jodie supusera que seria quente e musical.
       Tinha quase os alcanado quando Lorenzo levantou uma das mos de forma autoritria e disse:
       - Em ingls, por favor, Caterina. Assim minha futura esposa vai conseguir entender.
       O efeito das palavras na mulher foi um cataclisma. Parou de se mover e virou-se para olhar Jodie, que foi empurrada para fora das sombras e parou ao lado
de Lorenzo presa pelo pulso por mos que pareciam garras.
       Um olhar furioso e incrdulo percorreu Jodie, seguido por uma exploso igualmente furiosa em italiano.
       - Por aqui - indicou Lorenzo a Jodie, ignorando a mulher.
       - No! - A mulher se colocou na frente deles e disse em ingls: - Voc no vai fazer isso comigo. No pode. Quem  ela?
       - Acabei de dizer. Minha futura esposa.
       - No. No pode fazer isso. - A voz desafinada e metlica estava furiosa. - No. No! - Ela sacudia a cabea de um lado a outro to violentamente que Jodie
ficou tonta, mas nem um simples fio do cabelo imaculadamente penteado escapou. - No! - repetiu. - Voc no vai fazer dessa coisinha sua duchessa, Lorenzo.
       Duquesa?
       - Voc no pode falar assim da mulher que escolhi - ouviu Lorenzo dizer frio.
       Meu Deus, em que confuso tinha se metido?
       - De onde essa mulher surgiu? De que sarjeta...
       Imediatamente um olhar de repulsa endureceu a expresso de Lorenzo, mas Caterina ignorou-a, pegando-o pelo brao e insistindo:
       - Responda Lorenzo. Ou eu...
       - Ou voc o qu, Caterina? - perguntou gentil, tirando-lhe a mo do brao. - Eu e Jodie nos conhecemos h alguns meses. Era minha inteno apresent-la a
minha av, mas infelizmente ela faleceu. Entretanto, ao saber agora como desejava que eu me casasse, pretendo seguir os ditames de meu corao bem como cumprir os
termos do testamento casando-me com Jodie o quanto antes.
       Jodie piscou incrdula ao ouvi-lo explicar a verso fictcia do "relacionamento" entre eles.
       - Mentira! Nada disso  verdade. Eu sei a verdade, e vou...
       - Voc no sabe e no vai fazer nada - Lorenzo interrompeu-a. - E aviso de antemo que no ouse espalhar boatos ou rumores sobre minha futura esposa ou meu
casamento.
       - Voc no pode me ameaar. - Caterina estava quase berrando. - Ela sabe por que voc vai se casar com ela? Sabe que o desejo de sua av no leito de morte
era que se casasse comigo? Sabe que voc...?
       - Silncio! - ordenou Lorenzo grosseiro, lanando um olhar furioso e frio como uma espada pontiaguda contra o inimigo.
       - No vou ficar quieta! - Virou-se e lanou um olhar hostil em direo a Jodie. - Ele contou que o nico motivo de se casar com voc  esse lugar? Por que
a no ser que se case no poder herd-lo?
       Essa mulher devia ser, com certeza, a pessoa a quem ele tinha se referido antes, pensou Jodie. De alguma forma conseguiu evitar que a expresso trasse o
que sentia - um legado, sem dvida, de todas as consultas a hospitais e da determinao de no deixar que outros a vissem sentir dor ou ter pena dela. Estava Lorenzo
preparado realmente para se casar com uma mulher que ele no conhecia apenas para herdar essa fortaleza satnica e caindo aos pedaos?
       -  impossvel que ele queira se casar com uma mulher como voc - disse Caterina venenosa.
       Ficou magoada. As palavras de Caterina eram to semelhantes s que Louise tinha dito - assim como a beleza morena de Caterina era to parecida com a de Louise.
Elas deram origem a uma onda de orgulho raivoso dentro de Jodie que lhe queimava as veias. Deu um profundo suspiro.
       - Mas ele vai se casar comigo.
       Por poucos segundos, se sentiu to perdida na euforia de dizer essas palavras que tanto desejara poder dizer a Louise que nada mais importava - muito menos
o bom senso implorando que fosse mais cautelosa.
       Mesmo ao ouvir o furioso berro de Caterina e sentir o odor de lcool, no se deu conta do perigo e a mo de unhas vermelhas da mulher j estava levantada
para esbofete-la quando Lorenzo soltou Jodie e segurou Caterina, forando-a a afastar-se e gritando:
       - Basta!
       - Voc no pode fazer isso comigo. No vou permitir! - gritou Caterina para Lorenzo.
       A cabea de Jodie doa e o corpo tremia diante da tentativa de Catarina de atac-la fisicamente.
       - Voc vai juntar suas coisas e deixar o Castillo imediatamente - ouviu Lorenzo ordenar.
       - Voc no pode me obrigar. Tenho tanto direito de estar aqui quanto voc. Lembre-se: at que voc se case, o Castillo pertence a mim tanto quanto a voc.
S quando voc se casar, ser seu. E voc no vai...
       - Chega!
       A ordem ressoou como uma bofetada, fazendo com que at mesmo Jodie estremecesse ao ver Lorenzo sacudir a mulher com fora antes de solt-la.
       Ignorando Jodie, Caterina queixou-se:
       - Voc me machucou. Amanh vou estar com uma mancha... - Mudou para o italiano e disse algo baixinho e depois sorriu debochada.
       Jodie esperou impassvel. Os instintos femininos, agora aguados depois do reconhecimento tardio de todos aqueles olhares e palavras que presenciara entre
John e Louise, nas semanas precedentes  admisso de que a traam, tornaram-na imediatamente desconfiada de que o que Caterina tinha dito para Lorenzo tinha sido
ao mesmo tempo ntimo e sexual. Por qu? Porque um dia o relacionamento entre eles havia sido ntimo e sexual? Havia sido... ou ainda era? Havia uma bvia animosidade
entre eles - animosidade e desprezo no que dizia respeito a Lorenzo - ou, pelo menos, parecia.
       - Ele est usando voc. Sabe disso, no sabe? E quando conseguir o que quer vai descart-la - disse venenosa. Em seguida, abruptamente como chegara, partiu,
batendo a porta.
       Ignorando completamente o que tinha ocorrido, Lorenzo anunciou:
       - Por aqui. Vou lev-la at seus aposentos.
       A cena com Caterina a deixara mal e trmula agora que tinha terminado, Jodie se deu conta. Tanto quanto se sentira aps as revelaes de Louise. Mas Lorenzo
j estava a meio caminho da porta, onde Caterina desaparecera, e Jodie tinha que se apressar para alcan-lo. Saram num outro hall com uma imponente e elegante
escadaria de mrmore, totalmente inesperada.
       - Essa parte do Castillo foi remodelada durante a Renascena - explicou Lorenzo ao perceber sua surpresa.
       Na parte superior das escadas um largo corredor abria para dois lados. Lorenzo dirigiu-se  ala direita, iluminada suavemente com lmpadas de parede em estilo
antigo e abaixo um par de portas duplas ornadas.
       - Minha av reformou essa parte do Castillo para meu uso depois do divrcio de meus pais - anunciou Lorenzo ao abrir as portas. - Gino sempre dizia...
       - Gino? - perguntou Jodie curiosa.
       - Meu primo, o falecido marido de Caterina.
       - Ento ela  viva? - Jodie no conseguiu deixar de perguntar.
       -  viva sim.
       - E mora aqui?
       Um muxoxo cnico surgiu e desapareceu, sendo substitudo por um olhar de amargura.
       - Ela tem um apartamento em Milo, mas mudou-se para c quando minha av ficou doente. - Franziu a testa e disse abruptamente: - Voc faz muitas perguntas.
J  tarde e eu tenho o que fazer. Explicarei tudo que precisa saber amanh. Apenas se lembre de que, para todos os efeitos, nosso relacionamento tem algum tempo
assim como nossos planos; de casamento.
       - Caterina disse que sua av queria que voc se casasse com ela - no pde deixar de comentar.
       A expresso ficou dura e Jodie comeou a se arrepender.
       - Ela estava mentindo. Ela  quem deseja um casamento entre ns, porque cobia meu ttulo e meu dinheiro. Caterina  uma sanguessuga, uma parasita, uma mulher
que provou estar disposta a vender-se para quem der mais.
       Jodie ficou curiosa, mas a expresso do rosto de Lorenzo demonstrava que o assunto estava encerrado. Cautelosamente, atravessou as portas que ele acabara
de abrir e a curiosidade a respeito de Caterina foi afastada pela surpresa. O aposento no qual entrara era moderno e mobiliado simplesmente: paredes pintadas num
tom marfim, um tapete em tom natural e dois grandes sofs de couro.
       - A forrao original foi tirada desse aposento durante a guerra, quando o castelo foi ocupado. Nessa ocasio, o primeiro marido de minha av foi morto.
       Jodie sentiu um arrepio de frio.
       - Onde... onde so os aposentos de Caterina?
       - Ela est hospedada nos aposentos principais, originalmente ocupados por minha av. - E continuou, antes que Jodie fizesse outra pergunta: - Vou pedir que
meu advogado venha amanh para que possamos fazer um contrato e tomar as providncias necessrias para nosso casamento.
       Jodie ficou tensa:
       - Estive pensando...
       - Caterina assustou voc, no  isso? Est com medo dela?
       - No! - Jodie negou vigorosamente. - No tenho o menor medo dela.
       Lorenzo levantou uma sobrancelha escura como se no acreditasse.
       - No  isso, mas se voc est falando srio quanto ao casamento, ento quero...
       - Sim? - disse convidativo. Era exatamente o que tinha pensado. Ela j estava calculando quanto poderia tirar dele. - Quer o qu? Dois milhes em vez de um?
       Jodie lanou-lhe um olhar irritado.
       - No. J disse que no quero seu dinheiro.
       - Mas quer alguma coisa...
       - Quero - concordou e soltou um suspiro profundo. - Quero que voc v comigo ao casamento de John e Louise.
       Ela prendeu a respirao esperando pela recusa, dizendo a si mesma que essa seria a desculpa para dizer que no continuaria com a farsa e os planos diablicos
que ele arquitetava.
       Mas, em vez de recusar, Lorenzo disse suave:
       - Ento, voc ainda o deseja...
       - No, s desejo... - Ficou em silncio e balanou a cabea. - No tenho que explicar nada a voc. Essas so as condies para casar com voc. Est em suas
mos aceitar ou no. - Por favor, fazei com que ele recuse...
       - Ento est bem. Iremos ao casamento de seu ex-noivo, mas como marido e mulher.
       Jodie sentiu alvio. Alvio? Porque aceitava o fato de no mais ter que tomar decises? Porque entregara o controle da vida ao arrogante estrangeiro?
       - Venha comigo...
       Cansada, Jodie seguiu-o atravs de outra porta que levava a um estdio muito masculino e a uma antecmara com duas portas. - Esse  meu quarto - informou-a
Lorenzo, indicando uma porta - e esse  o quarto de hspedes.
       Ele a olhava como se a testasse, como se esperasse que ela escolhesse. Determinada, caminhou em direo  porta do quarto de hspedes e girou a maaneta.
       Como os outros aposentos, era decorado e mobiliado num estilo moderno e despojado, mas s estava interessada na maravilhosa cama. A perna doa tanto que ela
estava comeava a andar com dificuldade.
       - Essas portas do para o quarto de vestir e o banheiro - explicou Lorenzo. - Vou mandar trazer sua mala. Est com fome?
       Jodie balanou a cabea. J tinha superado isso. Tudo que queria era deitar para aplacar a dor na perna. Deu um passo  frente e a perna fraquejou. Lorenzo
segurou-a, antes que casse no cho, suspendendo-a to bruscamente que ela gritou de dor.
       - Diablol O que foi? Alguma coisa errada?
       - Nada. S minha perna - disse Jodie afastando-o e tentando manter-se de p. Mas era tarde demais. A perna chegara ao limite e se recusava a sustent-la.
Podia ver o jeito que Lorenzo franzia a testa. Imediatamente, levantou a cabea orgulhosa.
       - Tenho um problema na perna. Sofri um acidente. s vezes, quando me canso em excesso... Se no quiser casar comigo por causa disso, ento...
       - Foi isso que o homem com quem ia se casar disse? Que no queria voc por isso?
       O rosto de Jodie ficou vermelho. Tinha falado demais - um erro que s podia atribuir ao cansao e ao estresse das ltimas experincias.
       - No.
       - Mas isso era motivo de algum tipo de conflito entre vocs?
       - Ele no gostava do fato de eu ter uma perna... - Deu de ombros. - Mas isso  natural, no ? Homens gostam de mulheres lindas e...
       - Faz parte da natureza humana valorizar a beleza - disse Lorenzo. - Mas, algumas vezes, a beleza maior s vem atravs do sofrimento e da dor.
       Jodie olhou-o desconfiada. Estava muito cansada para analisar um comentrio to melanclico. Olhou a cama. Lorenzo seguiu-lhe o olhar.
       - Vou deixar voc. Encontrar tudo que precisa no banheiro, mas, qualquer coisa, pea a Pietro quando ele trouxer a mala. Ele avisar Maria e ela providenciar
o que precisa.
       - Pietro e Maria - repetiu os nomes. - Seus empregados?
       - Eles tomam conta do Castillo. Foram contratados por minha av. Deveriam se aposentar, mas essa sempre foi a casa deles e seria uma crueldade mand-los embora,
dando a entender que no so mais teis. Bem, depois de falar com meu advogado e cuidar dos preparativos para nosso casamento, me preocuparei em tornar esse lugar
mais habitvel.
       Eles iam morar ali? Havia tantas perguntas a serem feitas, mas agora estava exausta demais para se importar com qualquer coisa que no fosse dormir
       CAPTULO CINCO
       Pelo menos a gua do banho era quente e as toalhas que Maria tinha trazido, irrompendo no quarto numa torrente de italiano incompreensvel enquanto inspecionava
Jodie, eram deliciosamente macias e felpudas.
       Assim como o quarto, a decorao do banheiro era muito simples, mas no deixava dvida quanto  qualidade e elegncia da loua e do mrmore que cobria o piso
e as paredes.
       Enrolada numa toalha, Jodie foi descala at o quarto e abriu a mala, procurando rapidamente uma camisola. Mas quando tirou as roupas, cuidadosamente arrumadas,
congelou. A camisola estava l, assim como uma das lingeries que comprara para a lua-de-mel: em tom floral, a tanga de seda abotoada com laos de cetim. Era to
linda que no resistira e a comprara num impulso, na hora do almoo, depois de outra noite passada com John que se recusava a fazer qualquer coisa alm de suaves
carcias.
       No sabia,  claro, que o motivo de John no ter levado a intimidade at a concluso lgica no tinha sido por am-la muito, mas sim por am-la pouco. Agora,
graas a Louise, sabia que todo o tempo em que o desejava e admirava-lhe o controle, ele secretamente se afastara.
       O que diabos essas coisas estavam fazendo na mala? Encontrou a resposta em um bilhete de Andrea, enfiada entre as dobras da camisola.
       "Achei um desperdcio no levar essas peas. Nunca se sabe... Pode encontrar algum que as aprecie... e a voc..."
       Jodie quase caiu na gargalhada. Andrea tinha adivinhado. Como futura noiva, devia ser capaz de encontrar uma utilidade para esses itens, mas sabia que Lorenzo
a apreciaria e as roupas ainda menos do que John.
       Tirou a camisola e fechou a mala, colocando-a no cho antes de enroscar-se nos lenis da imensa cama e apagar a luz.
       Devia pensar na situao em que se metera e encontrar uma soluo para escapar dela, mas estava cansada demais.
       Lorenzo desligou o computador. Enviara e-mails a diversas pessoas para explicar seus planos - ao advogado, ou pelo menos aquilo que queria que ele soubesse;
a um certo diplomata que ocupava uma posio de destaque para se casar com a noiva inglesa o mais rpido possvel; e ao Cardeal, seu primo em segundo grau. Por sorte,
j tinha em seu poder o passaporte de Jodie e enviou por fax todas as informaes para os trs homens. Instrura o advogado a fazer um acordo nupcial, com a maior
urgncia, e tambm para providenciar para que a propriedade do Castillo fosse transferida para ele, de acordo com os termos do testamento da av.
       Depois deixou os aposentos e desceu, atravessando os aposentos que no eram usados com sua moblia antiquada e cheiro de mofo at chegar  porta desejada.
Sentia a tenso crescer, bem como a excitao; os sentidos j antecipando o prazer  sua espera. Ele se casaria com uma dzia de mulheres inglesas plidas e magricelas,
se necessrio, para satisfazer o desejo que o consumia h tanto tempo.
       A cibra nos msculos da perna arrancou Jodie do sono profundo e fez com que soltasse um grito agudo de dor.
       Lorenzo a ouviu ao sair do banheiro, e se assustou quando o segundo grito ecoou. Segurando a toalha em torno dos quadris, seguiu em direo ao quarto de hspede.
Abriu a porta e acendeu a luz.
       Jodie estava deitada no centro da cama, tentando desesperadamente massagear a perna.
       Lorenzo reconheceu imediatamente o que acontecera. Ao chegar na cama, segurou-a pelos ombros, perguntando:
       - O que ? Cibras?
       Jodie arfava de dor.
       - . Na minha perna...
       A intensidade da dor deixara seu rosto cinza e Lorenzo podia ver as gotas de transpirao formando-se na testa.
       - Voc costuma ter cibras fortes assim com freqncia?
       Por que lhe perguntava isso? Estava com medo de ter que assumir responsabilidades mesmo que por apenas um ano?
       - No, apenas quando me canso demasiado. A! - gritou quando os dedos fortes encontraram o exato ponto na perna onde a dor se concentrava.
       - Fique deitada, parada - instruiu-a Lorenzo. - Est tudo bem. - Quando ela olhou para ele desconfiada, ele acrescentou: - Sei o que estou fazendo.
       Jodie teria continuado a resistir se uma segunda contrao no tivesse tomado conta dela, deixando-a sem energia para nada a no ser suportar a dor. Lorenzo
soltou um palavro e levantou-a, ignorando-lhe os protestos e virando-a de bruos.
       Agora, com as pernas expostas pela camiseta infantil ridcula que vestia, ele podia constatar que estava certo quanto ao comprimento das pernas. Tambm via
que uma das pernas era ligeiramente mais fina do que a outra e que na parte interna do joelho havia cicatrizes.
       Com a cibra continuando seu brutal assalto, Jodie no estava nem mesmo ciente de estar enfiando as unhas no brao de Lorenzo, na tentativa de no gritar.
Isso foi o pior que se lembrava de ter feito.
       Lorenzo esperou o aperto afrouxar, desvencilhou-se e comeou, rapidamente, a mover os longos dedos pressionando o n nos msculos contrados at que Jodie
tivesse vontade de gritar de agonia. Tentou libertar a perna, mas depois o alvio surgiu e o msculo comeou a relaxar. Um tnue estremecimento sacudiu o msculo.
       - Relaxe... - Lorenzo ainda massageava-lhe a perna, mas agora os movimentos firmes das mos dirigiam-se para a parte superior da coxa e a tenso que tomou
conta dela quando os dedos tocaram a barra da camisola era causada pela cibra no estmago, no na perna. E no tinha nada a ver com excesso de cansao.
       - A julgar pelas cicatrizes, voc deve ter sido submetida a diversas operaes...
       Jodie voltou a ficar tensa. Queria puxar a perna, mas tinha receio de se mover e levantar ainda mais a camisola. Tarde demais para pensar que podia ter colocado
uma calcinha e no apenas a camisola.
       - Muitas... - disse resumidamente.
       - Quantas?
       Soltou um suspiro.
       - Isso faz diferena? Voc no vai ter que cuidar de mim se eu acabar numa cadeira de rodas, vai?
       - Existe essa possibilidade? - Ele ainda massageava-lhe a perna, mas agora os dedos deslizaram pela cicatriz. Por alguma estranha razo, Jodie descobriu que
estava louca para gritar. Ningum tocara suas cicatrizes a no ser profissionalmente. Os longos meses no hospital tinham-na forado a muitos exames, a mdicos discutindo
seu estado como se ela fosse um equipamento quebrado que tentavam consertar e botar em funcionamento. O que,  claro, para eles, era exatamente o que representava.
Ficou grata por tudo o que tinham feito por ela - como poderia ser diferente? - mas ao mesmo tempo...
       Ao mesmo tempo o qu? Secretamente, ansiara por um toque mais pessoal, um toque reconfortante de algum que no demonstrasse repulsa nem fizesse um drama
sobre as cicatrizes.
       Mas nenhum toque a fizera sentir-se do jeito que o toque de Lorenzo a fazia sentir.
       - No. Minha perna sempre ser fraca, mas est curada - desabafou. Mordeu o lbio, sem querer se lembrar daqueles dias terrveis quando os mdicos temiam
ter que amputar-lhe a perna. - Obrigada. J pode parar. A cibra passou - disse, forando-se a concentrar-se em alguma coisa. - qualquer coisa - que no fosse o
toque suave dos dedos. Nenhum amante poderia... Nenhum amante? Estava ficando louca?
       Virou-se para encar-lo, consciente do calor da mo, ainda lhe queimando a coxa desnuda, os olhos esbugalhados ao se dar conta do que no vira antes: tudo
que ele vestia era uma toalha, amarrada nos quadris, e o corpo era suficiente para fazer qualquer mulher babar. Mas, daqui para frente, no ia se permitir desejar
nenhum homem e, certamente, no um homem desses. Seus instintos lhe diziam que ele era extremamente perigoso. Era um macho alfa autoritrio, determinado a conseguir
o que queria, no importa os meios usados, e nisso ela devia concentrar a ateno - no nos msculos da barriga trabalhada ou na masculinidade dos plos do corpo
que desciam at a beira da toalha. Jodie encostou a lngua nos lbios e prendeu a respirao.
       Lorenzo tirou a mo de sua coxa e ajeitou a toalha. Percebeu que Jodie focava o movimento das mos com a respirao acelerada.
       - Se continuar olhando para mim assim - comeou num tom sensual - vou achar...
       - O que quer dizer? - protestou, o rosto ardendo.
       - Voc est me olhando como uma garota olhando um homem pela primeira vez - disse Lorenzo debochado. - O que me levar a me perguntar sobre o tipo de mulher
que voc  e que tipo de homem era seu ex-noivo para deix-la assim.
       - No estava olhando para voc de jeito estranho - argumentou histrica. - Voc est imaginando coisas. Nenhuma mulher moderna imagina como  o corpo de um
homem.
       - Ento voc no se importaria se eu no estivesse usando isso? - sugeriu Lorenzo, os dedos descansando na toalha.
       Jodie deu de ombros como se no se importasse.
       - No, por que ficaria? Todos os homens nus so iguais.
       - Seu ex-noivo era circuncidado?
       Jodie abriu a boca e fechou-a imediatamente, o rosto vermelho como um tomate, o corao aos pulos como se quisesse escapar-lhe do peito assim como ela queria
escapar de seus pensamentos. Ser que ele estava perguntando isso porque tinha adivinhado que ela simplesmente no sabia? Porque queria humilh-la fazendo-a admitir
como sua experincia sexual era limitada?
       - Por que quer saber?
       - Por que no responde?
       - No estou questionando voc sobre sua vida sexual. E se vamos nos casar...
       - Se? No h "se" nessa histria. J entrei em contato com meu advogado. Ele vai estar aqui pela manh.
       - Vai ser necessrio um tempo para resolver as formalidades legais.
       - No para ns. Assim que encontrarmos Alfredo, vamos para Florena.
       - Florena?
       - Tenho negcios para resolver e voc vai comprar o vestido de noiva.
       - Um vestido de noiva?
       As sobrancelhas escuras se levantaram.
       - Presumo que no tenha trazido seu vestido de noiva quando fugiu...
       Jodie afastou o olhar.
       - No, no trouxe. - O vestido de noiva ainda estava pendurado na loja onde tinha sido comprado e pago.
       Lorenzo a olhou impassvel.
       - H vrias lojas de estilistas em Florena. Vai achar algo.
       Estilistas? Encontrar algo ia ser fcil, refletiu Jodie; pagar  que ia ser difcil, levando-se em conta seu oramento apertado.
       Umedeceu os lbios com a ponta da lngua.
       - E se...? E se eu tiver mudado de idia?
       - No vou deixar.
       - No pode me impedir.
       O jeito com que a olhava trouxe-a  realidade: estava presa nessa fortaleza onde, sem dvida, os ancestrais dele tinham mantido prisioneiros nas masmorras.
       - De que tem medo? - perguntou.
       - No tenho medo de nada nem de ningum - mentiu.
       - Ento no h motivo para no se casar, certo?  um acordo do qual ambos vamos sair ganhando algo importante. Quando seu ex-noivo vai se casar?
       - No ms que vem.
       - Vamos estar casados at l e voc ter o prazer de me apresentar a ele como seu marido. Agora j  tarde e amanh temos muito a fazer.
       - Por que no quer se casar com Caterina?
       Imediatamente fechou o rosto.
       - Isso no lhe diz respeito - respondeu agressivo. - Vou deixar voc dormir. Com sorte, a cibra no vai voltar.
       Em outras palavras: cuide de sua vida, refletiu Jodie enquanto o via se afastar.
       CAPTULO SEIS
       O som da porta do quarto e o chocalhar de loua tiraram Jodie de um pesadelo em que era forada a ver John caminhar pela nave da igreja em direo  noiva.
Mas quando ele a alcanava no era John que estava se casando com outra mulher, mas Lorenzo. Estranhamente, em vez de se sentir aliviada, sentia cimes.
       - Buongiorno. - Maria cumprimentou-a sorridente ao descansar a bandeja, caminhando em seguida para abrir as pesadas cortinas e a janela. O sol e o calor invadiram
o quarto.
       Jodie ficou com gua na boca ao sentir o cheiro de caf fresco e ver os pes e frutas.
       - Grazie, Maria. - agradeceu  empregada idosa com um sorriso acolhedor. Afastou as cobertas quando Maria deixou o quarto.
       No havia notado que o quarto tinha uma sacada dando para um jardim fechado em estilo mourisco. Arcos recobertos por rosas cor-de-rosa e, do privilegiado
ponto em que se encontrava, podia ver, bem no centro do jardim, um lago onde uma fonte ornada lanava jatos d'gua para cima antes de cair na superfcie, perturbando
os gordos peixinhos dourados.
       Jodie serviu-se de uma xcara de caf e voltou para a sacada. Ia se sentar em uma das duas cadeiras da mesinha de ferro, quando a porta foi aberta pela segunda
vez. Achando que Maria tinha voltado, olhou com um sorriso que desapareceu ao ver que era Lorenzo.
       - Bene, j acordou. Alfredo ligou para avisar que est a caminho e chegar em uma hora. Acredito que tenha dormido bem e a cibra no tenha voltado.
       - No... quero dizer, sim... Dormi bem e no, a cibra no voltou - mas o formigamento onde ele a tinha massageado a mantivera acordada por um bom tempo.
       Diferentemente dela, Lorenzo estava todo vestido, fazendo-a sentir-se agudamente consciente do tamanho de sua camisola. No que ele a estivesse olhando. Olhava
com desagrado algo no cho, perto da cama e da mala que no desfizera pois estava muito cansada na noite anterior.
       Agachou e pegou um corpete que tinha esquecido de guardar. Segurando-o entre os dedos, olhou-a interrogativamente.
       - O que  isso?
       - O que parece?
       - Parece algo que uma danarina de cabar poderia usar.
       - Faz... faz parte de meu enxoval - disse relutante. Certamente no queria que ele achasse ser algo trazido para usar nas frias. - Foi parar na minha mala...
por engano.
       - Enxoval? Ia usar isso pensando em seduzir seu marido? O que ele era? Algum tipo de fetichista?
       Demorou alguns minutos at reagir.
       -  um corpete, s isso - disse furiosa. - Se quer dar a isso uma srdida interpretao, problema seu. - Estava a um passo das lgrimas de humilhao quando
lembrou-se da insegurana ao comprar o corpete, na esperana de que pudesse levar John a agir de forma mais impetuosa. - Est na moda. Algumas mulheres usam at
para sair.
       - , j vi. Exibem os seios como prostitutas para qualquer homem.
       Prostitutas? Por acaso estava sugerindo...?
       - Suponho que goste que suas mulheres se vistam - comeou zangada, mas Lorenzo interrompeu-a.
       - Gosto de ver uma mulher vestida com algo que sugira a sexualidade em vez de exibi-la. No com roupas que a faam parecer uma criana ou uma prostituta -
disse deixando cair o corpete na cama.
       Uma criana? Por acaso estava se referindo  sua camisola?
       - Como est sua perna? - perguntou calmo, pegando uma xcara de caf e andando at a sacada.
       De repente, o que parecia um lugar agradvel, para usufruir do ar da manh, tinha se tornado um espao muito ntimo e diminuto. Teria deliberadamente se referido
 sua perna agora porque imaginava o quanto ela tinha conscincia de que seu defeito a tornava menos desejvel como mulher? Se no tivesse jurado querer ficar longe
do amor e dos homens para sempre, decidiu amargurada, com certeza Lorenzo conseguiria faz-la tomar essa atitude.
       - Bem. Qualquer um pode ter cibras, voc sabe - disse na defensiva. - Mesmo algum com duas pernas perfeitamente normais.
       - Voc acha que as suas no so...? H lugares no mundo onde pessoas, com freqncia crianas, sujeitas  injustia de guerras que no compreendem, tm feridas,
inclusive a perda de membros, que dariam tudo para ter um probleminha como o seu.
       Jodie ouviu-o furiosa. Como ousava passar-lhe um sermo? Logo ele que vivia uma vida privilegiada, totalmente afastada da realidade?
       - E o que voc sabe sobre o sofrimento dos outros? - perguntou debochada. - Aposto que o mais prximo que esteve de testemunhar a destruio da guerra foi
no jornal ou na televiso.
       Colocou a xcara na mesinha com um movimento zangado e tentou passar por ele para voltar ao quarto. Mas Lorenzo que voltara a olhar para o jardim, colocou-lhe
a mo no brao para impedi-la.
       - Caterina est nos olhando do jardim - disse baixinho.
       - E da?
       Botando a xcara de lado, virou-se e sussurrou:
       - E da...
       Diminuiu a distncia entre eles e ela no tinha como fugir. Os braos a envolveram, prendendo-a, o calor atravessando o tecido fino da camisola. As mos seguraram-lhe
as costas, curvando-a como se ela fosse totalmente flexvel, dele para que fizesse o que bem lhe aprouvesse. Uma das mos permaneceu em suas costas, puxando-a contra
ele - colando-a, reconheceu tonta - enquanto a outra escorregou-lhe pela nuca, os dedos enfiados na maciez dos cabelos, agarrando-os para que virasse a cabea para
trs e voltasse o rosto em direo ao dele.
       Tremendo da cabea aos ps de raiva, o encarou.
       A cabea dele bloqueou a luz do sol ao abaix-la para que a boca se apossasse da sua. Jodie contraiu-se na defensiva, sem ousar se mover. Os lbios dele eram
frios e duros. Podia sentir o cheiro de sabonete. Teimosa, recusou-se a retribuir o beijo. A ponta do dedo acariciou-lhe a parte de trs da orelha e a parte vulnervel
do pescoo e um ligeiro tremor traioeiro galvanizou-lhe todo o corpo.
       Os lbios tocaram os seus, os olhos cinza brilhando, conscientes de terem feito seu corpo queimar, quando perguntou suave:
       - Voc nem sabe beijar direito? E foi noiva! Abra a boca.
       Confrontada com a opo de ser tachada de uma mulher to sexualmente inapta que no sabia nem beijar ou ceder a essa exigncia arrogante, Jodie escolheu o
orgulho feminino  raiva. Os lbios amoleceram e se afastaram. O brilho dourado de seu olhar mesclando-se ao prateado hipntico dos olhos de Lorenzo como se fossem
um im atraindo-a para um destino do qual no podia escapar. Sua boca colou-se  dele e os braos envolveram-lhe o pescoo. Podia sentir o calor do sol nas costas,
mas era o calor do toque de Lorenzo que fazia com que sua carne reagisse; a mo espalmada contra suas costas por cima da camisola enquanto ela ficava na ponta dos
ps, colada nele, beijando-o numa intimidade sensual que normalmente a deixaria chocada.
       Podia sentir-lhe a mo agarrando-lhe a cintura e depois movendo-se para segurar-lhe os seios por baixo da camisola, a ponta do dedo roando o mamilo subitamente
duro, fazendo com que vibrassem como um arco manuseado por um experiente arqueiro. A outra mo massageava-lhe a base da espinha e depois desceu para acariciar a
curva redonda de seu traseiro.
       A sbita investida sexual da lngua contra a sua aproximou-a mais, a respirao escapando num suave ronronar de prazer.
       - O que  isso? - sussurrou Lorenzo. - Quer que eu acaricie e beije seus seios? Quer que eu coloque o bico do seu seio na boca e a leve ao auge do prazer?
 isso que est pedindo com esse movimento de quadris? - Enquanto sussurrava, a mo de Lorenzo moveu-se para acariciar-lhe o sexo macio.
       Era isso que ela desejara por tanto tempo de John - desejo, intimidade, sensualidade - e usufruiu com todos seus sentidos, perdida num mundo particular de
prazer ertico.
       Foi o som dos passos zangados contra o cascalho abaixo da sacada que a trouxe de volta  realidade, envergonhada diante da prpria incoerncia.
       - Voc no tinha direito de agir assim - disse zangada.
       - Ento por que no me impediu? - perguntou, displicente.
       No o impedira porque estava gostando demais - percebeu sentindo-se culpada.
       - Voc disse que no haveria... que no haveria intimidade entre ns - retorquiu, reagindo.
       - Isso no foi intimidade. Se quisesse intimidade, teria levado voc para algum lugar onde ningum nos visse e no momento, em vez de estar parada aqui, irritada
comigo, estaria deitada por baixo de mim e as nicas palavras que pronunciaria seriam pedidos desesperados para que eu a possusse. Como avisei, estava simplesmente
demonstrando a Caterina que eu e voc vamos nos casar. Ou est irritada por no estar deitada debaixo de mim, enquanto eu mostro a esse seu corpo virginal o que
 sexo?
       - Eu no sou...
       - No  virgem?  isso que vai me dizer?
       - No. Ia dizer que no estou interessada em fazer sexo com voc.
       - Ento voc  virgem?
       - E se for?  crime?
       - Por lei no. Mas contra a natureza . Onde est o prazer de um livro fechado que nunca foi lido? Uma msica que nunca foi cantada? Um cheiro que nunca encheu
o ar com sua fragrncia ou uma mulher que nunca gritou de prazer ao ser possuda?
       O silncio foi subitamente interrompido pelo som de um carro chegando num ptio adjacente.
       - Deve ser Alfredo - disse Lorenzo, em tom profissional. - Venha at meu escritrio assim que se vestir. Alfredo vai querer discutir toda a papelada necessria
para nosso casamento.
       Ao v-lo partir, Jodie pensou em dizer que mudara de idia; acabar com aquela arrogncia e arruinar-lhe o orgulho, como ele tinha feito com ela. Como podia
ter reagido daquele jeito? Como pde deixar cair a guarda a ponto de ter correspondido? Agora, obviamente, ele achava que poderia usar sua vulnerabilidade contra
si mesma para que fizesse tudo que ele quisesse. Qualquer coisa. Cada uma das palavras que acabara de pronunciar, cada olhar tinham demonstrado que ele acreditava
que ela lhe pertencia.
       Mas ela no era, e nunca ia ser. Ia deixar isso claro para ele. E se no conseguisse? O quanto queria realmente aparecer no casamento de John e Louise com
o marido? O suficiente para correr o risco?
       Mais do que o suficiente, decidiu com renovada determinao enquanto pegava umas roupas limpas e caminhava para o chuveiro. J que estava decidida, nada que
Lorenzo dissesse ou fizesse iria alterar o fato de que simplesmente no queria um relacionamento ntimo - emocional ou fsico - com outro homem. John tinha provado
que no se pode confiar no sexo masculino e, se no podia confiar em John que dizia am-la e querer se casar com ela, ento certamente no ia se arriscar a confiar
num homem como Lorenzo!
       Quinze minutos depois, de banho tomado e vestida, com o cabelo ainda mido puxado para trs, Jodie hesitou do lado de fora da porta do estdio-escritrio
que Lorenzo mostrara na noite anterior.
       Podia jurar que no tinha feito o menor barulho, mas, antes de levantar a mo para bater educadamente na porta, Lorenzo deve ter adivinhado sua presena porque
abriu a porta e pegou-a pelo brao para conduzi-la  sala. Pegou-a pelo brao ou prendeu-a? Certamente, para qualquer um que olhasse, os dedos firmes em volta de
seu punho pareceriam ao mesmo tempo protetores e possessivos... a pegada de um amante querendo estabelecer a exclusividade do relacionamento - mas, ela,  claro,
sabia que no era isso.
       - Estava comeando a me perguntar por que demorava tanto - disse.
       - S demorei meia hora.
       - Me pareceu estarmos separados h sculos - disse carinhoso, dando-lhe uma olhada de tamanha sexualidade que ela no conseguiu evitar arregalar os olhos.
Estava apavorada pelo impacto de descobrir que um olhar tinha o poder de despertar-lhe o desejo de tirar toda a roupa e explorar a maior intimidade possvel. Ao
mesmo tempo, ficava evidente que ele tambm queria proteger e manter o corpo e a mulher apenas para ele. Qual devia ser a sensao de ser verdadeiramente amada e
desejada por um homem que olhasse desse jeito? Um homem que no tivesse medo ou vergonha de demonstrar os sentimentos? Mas Lorenzo no sentia nada por ela, lembrou-se,
nem ela queria que ele sentisse.
       - Alfredo, deixe-me apresent-la  minha futura esposa.
       O advogado tinha mais ou menos a mesma idade de Lorenzo, mas no era to alto e atraente, pensou Jodie. Entretanto, tinha uns olhos castanhos muito bonitos
e um sorriso afvel.
       - Lorenzo estava me falando sobre voc. Achei que estava exagerando, como  natural nos apaixonados, mas vejo que ele s estava fazendo justia - cumprimentou-a
Alfredo afetuoso.
       O advogado de Lorenzo exagerava um pouco nos elogios. Jodie sabia, mas no pde evitar retribuir o sorriso, sentindo-se logo  vontade.
       - No estranho porque est to ansioso para lev-la ao altar, Lorenzo - continuou Alfredo. - No seu lugar...
       - Mas voc no est no meu lugar, est? - comentou Lorenzo com uma arrogncia insuportvel.
       Entretanto, o advogado no pareceu ofender-se. Riu e disse:
       - No precisa ficar com cimes, meu amigo. Posso perceber que Jodie s tem olhos para voc. - Enquanto Jodie ainda digeria essa mentira, continuou: - Estava
perguntando a Lorenzo onde vocs se conheceram. Presumo que tenha sido no local daquele terrvel terremoto. Sei que Lorenzo estava l na funo de conselheiro das
autoridades governamentais encarregadas dos programas de ajuda. O que me faz lembrar, Lorenzo... como voc me instruiu, j garanti a remessa de fundos para cobrir
as despesas mdicas com as crianas que faro parte do programa de recuperao. - Alfredo virou-se para Jodie e deu-lhe um sorriso charmoso: - Voc j deve saber
que seu futuro marido tem um corao de ouro e enfia a mo no bolso para ajudar os necessitados. Voc o conheceu em alguma atividade beneficente?
       Jodie sentiu o rubor tomar conta do rosto ao se lembrar de suas acusaes. E no podia nem mesmo se conceder a satisfao de acreditar que Lorenzo tivesse
instrudo o advogado a dizer o que acabara de dizer. Um olhar para a expresso irada de Lorenzo foi o bastante para deixar evidente que as revelaes indiscretas
de Alfredo no o tinham agradado.
       - Jodie no trabalha em nenhum programa de ajuda, Alfredo - interrompeu-o. - Encontrei-a a algum tempo, quando estive na Inglaterra, Tinha planejado traz-la
aqui para conhecer minha av, mas infelizmente nonna morreu antes que eu pudesse faz-lo... o que me traz ao assunto referente a Caterina, viva de meu falecido
primo.
       - Ela no pode pleitear o Castillo uma vez que voc tenha respeitado os termos do testamento e se casado - garantiu Alfredo.
       - Nenhuma reivindicao quanto ao castelo, mas parece que Caterina julga ter direito a reivindicaes quanto a mim - disse Lorenzo cnico.
       Alfredo franziu o cenho.
       - Mas isso  impossvel.
       - Sem dvida. Mas Caterina, como ns dois sabemos,  dada a exageros. Ridculo, chegou a sugerir que minha av queria que eu me casasse com ela! Depois de
acabar com o dinheiro de Gino e jogar o nome dele na sarjeta, parece que quer fazer o mesmo com o meu.
       - Ouvi uns boatos sobre ela - concordou Alfredo, desconfortvel.
       - No duvido. No quero nenhum sobre meu casamento ou minha futura esposa, ento talvez seja importante dizer algumas palavras nos ouvidos certos para avisar
que ignorem qualquer coisa que Caterina possa vir a dizer... - sugeriu Lorenzo.
       - Uma idia excelente - concordou Alfredo, enquanto Jodie escutava e digeria a forma sutil e letal com que Lorenzo desmontava a base de poder de Caterina.
Quando se tratava de conseguir o que queria, Lorenzo era obviamente um oponente considervel. Um homem brutal, arrogante, perigoso - que, voluntariamente, dispensava
tempo e dinheiro para ajudar as jovens vtimas de guerras e desastres distantes. Esse no era um nico homem, mas dois homens diferentes sob a mesma pele - como
Jano, o deus romano de dupla face, voltado para o incio e para o fim, que deu origem ao ms de janeiro. Lorenzo era um enigma, o que o tornava um perigo txico.
Mas no para ela. Nenhum homem voltaria a representar um perigo para ela.
       - Trouxe comigo todos os documentos que vo precisar assinar para preparar o casamento. O Cardeal foi de grande ajuda. Ele sugeriu a Igreja de Madonna, em
Florena para a cerimnia e vai se ocupar dos proclamas para este domingo. J que a lei estipula que devem ser lidos em dois domingos consecutivos, antes do casamento
poder ser realizado, isso significa que vocs podem se casar daqui a duas semanas.
       Proclamas? Cerimnia religiosa? O casamento seria um negcio temporrio, no precisava de celebrao na igreja. Uma simples cerimnia civil bastava. Jodie
deu um passo  frente, mas Lorenzo conseguiu interpor-se entre ela e Alfredo. Os dedos seguraram-lhe com determinao o punho e leu o aviso nos olhos dele quando
levou a palma de sua mo at os lbios.
       - Voc fez bem, Alfredo - disse em tom de aprovao, sem tirar o olhar dela. - No acha, cara?
       Os lbios acariciam-lhe os ns dos dedos, um de cada vez, at que, indefesa, sentiu os dedos relaxarem, como se pedissem mais.
       - Tambm preparei os papis necessrios para que assinem o acordo financeiro. Tem um para voc assinar, Jodie, renunciando a qualquer reivindicao financeira,
no caso de divrcio, e o outro que voc me pediu para redigir, Lorenzo, estabelecendo que, caso se separem aps um perodo de um ano, pagar a Jodie um milho de
libras, mais um milho de libras extra por cada ano que permanecerem casados.
       - Assinarei o documento renunciando a qualquer reivindicao futura, mas no o outro. - As palavras foram ditas sem pensar. Podia ver que Alfredo parecia
ao mesmo tempo triste e ligeiramente embaraado.
       -  claro que  desagradvel para voc discutir essas coisas agora, antes mesmo de se casarem, mas...
       - No quero dinheiro.
       - Isso  algo que podemos discutir a ss depois - informou Lorenzo num tom de advertncia, antes de sorrir para Alfredo e dizer: - Voc tem um longo caminho
at voltar para Roma; o quanto antes terminarmos com a papelada, melhor.
       - Por que uma cerimnia religiosa em vez de uma cerimnia civil?
       Alfredo partira h uma hora, mas o sistema de Jodie ainda produzia adrenalina a mil quando confrontou Lorenzo atravs da larga mesa de trabalho.
       - Por que no?  hbito em minha famlia e seria de se esperar...
       - Voc devia ter me dito isso antes. Pensei que amos ter apenas um casamento civil. Casar-se na igreja faria com que parecesse to real...
       Lorenzo a olhava carrancudo.
       - Nosso casamento ser real. Tem que ser "real", como voc coloca, para que eu cumpra os termos do testamento. Mas no devemos consum-lo.
       - No, com certeza no - concordou Jodie veemente. - Estou comeando a desejar nunca ter me envolvido nisso.
       - Tarde demais. Alm do mais, vai ser bem remunerada.
       - Como j disse, no quero seu dinheiro. Tudo que quero de voc  que comparea ao casamento de John e Louise.
       - No poderia incluir essa clusula no contrato de casamento. Do jeito que est, j pode dar margem a comentrios e especulaes sobre nosso relacionamento.
Entretanto, voc conta com Alfredo. Obviamente ele ficou com medo de ferir seus sentimentos ao mencionar os aspectos financeiros do casamento.
       - Voc nunca poderia ferir meus sentimentos. Voc no  importante o suficiente para mim, e eu pretendo me assegurar que nenhum homem o ser daqui para a
frente.
       - Voc pretende morrer virgem?
       Ele estava debochando dela, sabia.
       - E se pretender? H coisas mais importantes na vida do que sexo!
       - Como pode saber? Segundo voc mesma admitiu, nunca experimentou...
       Jodie j tinha agentado o suficiente.
       - Uma mulher no precisa de penetrao para experimentar prazer sexual. Nem de um homem - disse com toda franqueza.
       - E essa a nica forma com a qual se permitir sentir prazer? Ou sozinha ou atravs de algum aparelho eletrnico que no pode...
       - No! No estava falando a meu respeito. S quis dizer... No vou ouvir mais nada. - Jodie ficou ruborizada e tapou as orelhas com as mos.
       - S estou chamando a ateno para o fato de voc estar rejeitando algo sem t-lo experimentado.
       - E voc? No est rejeitando o casamento? Pelo menos um casamento a srio... E nunca foi casado, foi?
       - Eu no me casei, mas j testemunhei o casamento de outros e vi como  destrutivo; como  usado para esconder mesquinharia e egosmo e como as crianas tm
que lidar com o fracasso dos pais.
       - Isso no  verdadeiro em todos os casamentos. Alguns no funcionam,  verdade, mas existem casamentos felizes. Meu primo e a mulher se amam profundamente,
e meus pais foram felizes...
       -  mesmo? Ento como esse maravilhoso gene, capaz de permitir que eles alcanassem esse raro estado de bno, no foi transmitido a voc?
       - Tudo reside na habilidade de escolher o parceiro certo. Percebi que no tenho essa habilidade e por isso no pretendo me apaixonar novamente. Mas isso no
significa que no acredite no casamento ou que algumas pessoas - outras pessoas - tenham a capacidade de escolher o parceiro certo e assumir compromissos.
       - S um tolo acredita que o amor sexual pode ser eterno - disse Lorenzo desafiante, como se esperasse que ela discordasse. Mas Jodie estava determinada a
no se envolver em outras discusses relacionadas a sexo. Toda vez que o fazia, uma sensao estranha vinha  tona e pulsava de uma forma ntima que a impedia de
se concentrar no que dizia.
       - Ah, por falar nisso - continuou Lorenzo - no pense que me convenceu com aquele ardiloso comentrio sobre no querer um milho de libras. O que tem em mente?
Acha que se recusar agora vai estar, quando nos divorciarmos, numa situao privilegiada para pedir mais? Se for esse o caso, deixe-me avis-la...
       Jodie j ouvira o suficiente.
       - No, deixe que eu avise voc que a nica razo para me casar com voc  poder mostrar a John que ele no  o nico homem no mundo. Assim poderei voltar
de cabea erguida para casa, em vez de voltar como a coitadinha. E meu orgulho que me motiva, no o dinheiro. No quero seu dinheiro! E muito menos sua... sua habilidade
sexual...
       - Perfeito, porque no vou oferec-la - disse Lorenzo. - Fico surpreso que nesses tempos modernos persista o mito de que homens adultos, sexualmente maduros,
alimentem um desejo secreto pelo corpo intocado das virgens. Eu, pessoalmente, no posso pensar em nada menos excitante. Talvez por isso seu ex-noivo tenha trocado
voc por outra. J pensou nisso?
       Se tinha pensado nisso? Durante semanas tinha passado noites e dias infindveis sem pensar em outra coisa. Noites em que se deitava se perguntando como poderia
se transformar de virgem em mulher experiente que poderia seduzi-lo e tir-lo de Louise, como Louise havia feito. Mas isso tinha sido durante o inferno da rejeio
e esses fogos, com sua compulso perigosa e destrutiva de provar-se a si mesma como mulher, tinham esfriado. E certamente no iam ser reacendidos por um homem como
Lorenzo - um homem que se comportava como se soubesse tudo a respeito da sensualidade das mulheres e da habilidade em excit-la e aproveitar-se disso.
       A pulsao do corpo tornou-se intensa. No apenas uma pulsao; o desejo se instalara.
       CAPTULO SETE
       - H outra coisa que quero dizer.
       Caterina parou na frente de Jodie, bloqueando-lhe a sada do bonito jardim que explorava.
       - Alfredo esteve aqui mais cedo. Por qu?
       - Voc devia perguntar isso a Lorenzo e no a mim. - Jodie tentou afastar-se.
       - Ele no quer se casar com voc.  a mim que deseja. Sempre me desejou e sempre desejar. Fui sua primeira mulher e serei a ltima. Mas, preferi me casar
com o primo dele e Lorenzo quer me punir e demonstrar que no se importa comigo. Mas  mentira. Ainda me deseja e posso provar isso quando bem entender.
       Jodie queria rejeitar a informao sendo empurrada para ela, assim como as imagens chocantes que j se formavam em sua cabea. A ltima coisa que queria era
imaginar Lorenzo fazendo amor com Caterina.
       - No sei o que lhe disse, mas o nico motivo de estar se casando com voc  porque sua teimosia e orgulho o fazem acreditar que tem que resistir aos prprios
sentimentos em relao a mim para provar como  forte. A verdade  que Lorenzo tem medo do que sente por mim - declarou, acrescentando sarcstica: - Quando ele vai
para a cama com voc,  em mim que pensa,  a mim que imagina estar abraando e  a mim que secretamente deseja estar abraando. - Deu-lhe um olhar de desprezo -
o mesmo tipo de olhar que Louise tinha dado. O corao pareceu perder o compasso e sentiu, como se fosse um eco, a dor e rejeio que se lembrava ter sentido e que
lhe roubavam a autoconfiana duramente conquistada.
       - Voc e Lorenzo podem ter sido amantes - comeou corajosamente.
       - Podem? No h "podem" nessa histria. Ns fomos - interrompeu-a. - Ele me adorava, me idolatrava. No conseguia resistir a mim.
       Sentiu um n no estmago. Em sua cabea podia ouvir Louise dizendo triunfante:
       - John no consegue resistir a mim.
       - Tivemos uma discusso... um mal-entendido. Lorenzo era jovem e temperamental. No podia deixar que ele me tratasse daquele jeito ento, para lhe dar uma
lio, abandonei-o.
       Jodie podia imaginar como Lorenzo devia ter reagido quele tratamento, orgulhoso como era. Mas, com certeza, o amor verdadeiro era mais forte que o orgulho.
       - Ele s vai se casar com voc porque no sente nada por voc. Lorenzo tem medo do que sente por mim e isso faz com que lute contra seu sentimento. Mas no
vai lutar contra ele para sempre. No pode. O desejo que sente por mim  forte demais.
       - Isso  ridculo - forou-se a protestar. - Afinal, nada o impede de se casar com voc.
       - A me dele  responsvel por essa ridcula recusa em se casar comigo - insistiu Caterina zangada. - Por causa dela, ele teme declarar em pblico seu amor
por mim. Por causa dela, ele tenta neg-lo, rejeit-lo. Mas ainda posso faz-lo me desejar.
       - A me dele no est morta?
       - Lorenzo nunca perdoou a me por trair o pai dele e deix-los quando partiu com o amante. - Caterina deu de ombros com desdm. - Muito barulho por nada.
Ele tinha sete anos e um pai rico o suficiente para poder providenciar todo o cuidado que precisava. Mas no, isso no era o bastante. Ele queria que a me voltasse...
chegou a implorar. Gino me contou. Ele a adorava. Os dois fizeram isso: Lorenzo e o pai. Ela no podia cometer erros. Era uma santa para eles. Disse a Lorenzo, muitas
vezes, que  loucura continuar a pensar no que aconteceu quando era criana. As mulheres abandonam os maridos e filhos a toda hora e Lorenzo vai deixar sua cama
pela minha, se voc for tola o suficiente para se casar com ele - avisou-a. - Vou me empenhar. E prometo que quando o fizer, ele no ser capaz de resistir.
       Assim como John no tinha sido capaz de resistir a Louise. O que havia em mulheres como Louise e Caterina que tornava os homens to vulnerveis e to cegos
a ponto de no perceberem como eram egostas?
       Para uma mulher que dizia amar Lorenzo, no demonstrava muita simpatia por ele. Para um menino de sete anos, perder a me que amava to intensamente quanto
Caterina contara, Lorenzo devia ter sofrido efeitos psicolgicos profundos. E se tivesse realmente amado Caterina, o casamento dela com o primo devia ter intensificado
sua crena de que as mulheres no mereciam confiana e que eram amorais, superficiais e egostas.
       O que estou fazendo? se perguntou Jodie. No podia estar sentindo simpatia por Lorenzo.
       Enquanto via Caterina se afastar, agradeceu por no estar se casando com Lorenzo por amor.
       Jodie virou-se para admirar os muros do Castillo. Estava sozinha no jardim. Aparentemente, Caterina se cansara de dar conselhos sinistros. No faria um casamento
indesejado para possuir tal lugar, pensou, mas ela no era Lorenzo. Ser dono do lugar devia representar uma questo de orgulho de famlia.
       Ficou tensa ao ouvir passos, reconhecendo-os imediatamente como de Lorenzo. Uma potente mescla de perigo, excitao e desafio bombeava-lhe, de forma intoxicante,
o corpo inteiro atravs das exploses aceleradas das batidas do corao. Era reconfortante comparar o que sentia agora com as emoes e sentimentos que sentira ao
encontrar John pela primeira vez. As duas reaes nada tinham em comum; portanto, o que sentia agora no era sinal de que se sentia atrada por Lorenzo.
       - Vi Caterina falando com voc h pouco. Me conte o que ela disse.
       Era tpico dele,  claro, que no apenas fizesse tal pedido, mas esperasse ser atendido - como se tivesse o direito de interrog-la.
       Jodie foi clara:
       - Me disse que vocs eram amantes.
       - E o que mais? - perguntou. Sacudiu os ombros:
       - Que voc faria qualquer coisa para ter a posse do Castillo - mas isso eu j sabia. E que sua me abandonou seu pai e voc, quando pequenino - o que  claro
eu no sabia.
       Agora ela obteve a reao que no havia obtido antes. Imediatamente a expresso de Lorenzo ficou dura.
       - Minha infncia pertence ao passado e no tem nenhum influncia no presente ou no futuro.
       Estava enganado, Era bvio, pela reao dele, que a infncia deixara feridas dolorosas abertas.
       - Como est sua perna? Percebi que voc a esfregava mais cedo, quando Alfredo estava aqui.
       O que havia motivado o comentrio? Preocupao em relao a ela? Ou uma tentativa deliberada de mudar de assunto? Jodie achava que sabia qual a resposta mais
provvel, mas isso no foi o suficiente para impedi-la de responder.
       - E um... hbito. No, quer dizer... Minha perna est bem. - Estava se comportando como se ele lhe tivesse feito algum elogio inesperado, percebeu zangada.
A rejeio de John devia ter afetado sua auto-estima, mas certamente no a tinha reduzido a um estado pattico no qual se sentia grata a um homem por perguntar por
sua sade! Mas o comentrio de Lorenzo a fizera lembrar-se de algo que precisava fazer.
       E agora  o momento certo, pensou, uma vez que o dia morria, o que significava que Lorenzo no poderia ver-lhe o rosto enrubescer.
       - Eu... eu lhe devo um pedido de desculpas - disse abruptamente. - Estava enganada ao sugerir que voc no sabia nada sobre os horrores da guerra.
       - Est se desculpando por um erro de julgamento?
       Jodie olhou-o, naquele final da tarde tingido de azul-escuro, e descobriu que a curva da boca revelava a mesma descrena cnica que percebia-lhe na voz.
       - Estou. Mas se tivesse me contado sobre sua ajuda humanitria, eu no precisaria faz-lo, certo?
       - Ah, foi o que pensei. Nunca conheci uma mulher que admitisse um erro.
       - Esse  o exagero mais ridculo que ouvi! - objetou imediatamente. -  o mesmo que dizer que...
       - Que voc nunca mais vai confiar nos homens porque um homem a decepcionou... - sugeriu Lorenzo.
       - No! Essa  uma deciso pessoal. No quer dizer... e eu nunca disse... que no se pode confiar nos homens. Talvez devesse analisar mais detalhadamente o
motivo de pensar desse jeito, no lugar de fazer acusaes infundadas contra o meu sexo!
       - Isso foi um pedido de desculpas? - perguntou Lorenzo zombeteiro.
       Ela se sentiu tentada a dizer que mudara de idia e que ele devia procurar outra para ajud-lo a garantir seu castelo destrudo. Mas a determinao de exibir
um marido para substituir aquele que perdera, de forma to humilhante, no a deixava tomar essa atitude. Suportaria qualquer coisa para poder gozar da doce satisfao
de ver a expresso de John e de Louse quando apresentasse "o marido".
       No queria revanche ou dinheiro - essas aspiraes negativas eram vazias e nada valiam - mas queria, de todo corao, experimentar a experincia de ver a
cara de todos quando chegasse no casamento com Lorenzo.
       Com um marido bonito, multimilionrio e com um ttulo de nobreza, ningum ia sentir pena dela ou olhar para sua perna quando achassem que ela no estava prestando
ateno, ou cochichar sobre ela, explicando quem ela era e o que tinha acontecido. Sim, era superficial. Sim, era tolo. Sim, uma parte dela se envergonhava. Mas,
mesmo assim, ia seguir adiante. E se acontecesse de ela chamar mais ateno que a noiva? Fantstico!
       Um leve arrepio ao constatar a prpria fora crescente passou-lhe pela pele. H dois meses, se sentia to por baixo que no podia nem supor esse tipo de sentimento.
Quem sabia o que ela conseguiria depois do casamento ter terminado? Podia comear uma vida inteiramente nova, fazendo o que queria, sem ter que se preocupar em agradar
mais homem nenhum.
       - O que voc espera? Que ele se vire no altar, veja voc e deixe a outra? - perguntou Lorenzo rudemente.
       - Como sabia que eu estava pensando em John?
       - H um certo brilho em seus olhos quando pensa nele.
       - Bem, voc est enganado - mentiu. - No estava pensando nele. Pensava sobre o que vou fazer no futuro. Depois do acidente, no estava em condies de ir
para a universidade ou receber um treinamento para fazer algo, mas agora nada me impede de faz-lo.
       - Admirvel! - disse Lorenzo, deixando claro que apreciava a declarao. - Agora, se no entrarmos logo, Maria vai sair para avisar que est na hora do jantar.
Espero que goste de massa, porque  tudo que vai conseguir. Ela s faz comida caseira, mas pelo menos pode adicionar alguma carne em seus ossos.
       Talvez fosse magrinha demais - a dor emocional tem esse efeito sobre as pessoas - mas no havia necessidade de dizer isso, pensou Jodie enquanto se virava.
       - Tome cuidado. Tem um degrau...
       Mas era tarde demais e soltou um grito ao dar um passo em falso e tropear.
       Mos poderosas a agarraram pela cintura e, como fizera antes, Lorenzo a pegou antes que tivesse atingido o cho, colocando-a de p.
       Quando foi que seus instintos registraram a sutil mudana na forma como essas mos a seguravam? O movimento que segurou-lhe o corpo e virou-o de forma impessoal
aos dedos na cintura quando a segurou na busca pela feminilidade dessa curva? Ele a puxara realmente para perto? Ou tinha sido ela que se movera para perto?
       Nas sombras, era impossvel ver o rosto dele ou avaliar qual das duas possibilidades promovera essa intimidade corpo-a-corpo, e ela esperou que fosse igualmente
impossvel para ele ler a expresso de seu rosto.
       Ele beijou-a apaixonadamente. Depois, sem uma palavra de desculpa ou explicao, soltou-a.
       Ela corria mais perigo de tropear do que antes, percebeu, pois as pernas tremiam.
       Jodie estava quase pegando no sono quando escutou o som da porta do quarto de Lorenzo abrir-se. Prendendo a respirao, concentrou-se, mas os passos firmes
se afastaram, passando pelo seu quarto sem hesitao.
       Sentou-se e olhou o relgio. J passava da meia-noite. Aonde estava indo? Encontrar-se com Caterina? E se fosse, no era de sua conta. E no havia motivo
para ficar ali deitada sem pregar os olhos, checando o relgio a cada minuto, as orelhas sintonizadas no som dos passos, como uma amante enciumada.
       CAPTULO OITO
       Florena! Como Lorenzo de Medici tinha amado essa cidade e demonstrado esse amor contratando os artistas mais talentosos da Renascena para embelez-la e
aumentar tanto sua glria quanto a da cidade!
       Jodie s conseguiu respirar normalmente ao sentar-se ao lado de Lorenzo na Ferrari, enquanto ele atravessava o trnsito frentico da cidade, absorvendo ao
mximo as maravilhas a seu redor. Lorenzo saiu da estrada principal engarrafada, ladeada pelo rio Arno, e dirigiu a Ferrari por uma rua de construes elegantes
do sculo XVII.
       - Meu apartamento fica no prximo quarteiro - informou casualmente, enquanto virava num beco e descia num estacionamento subterrneo.
       Os olhos de Jodie, acostumados  rua ensolarada, se ajustaram  penumbra do estacionamento. Ele j tinha dito que morava em Florena, mas no tinha dissera
ainda onde morariam depois do casamento. Se pudesse escolher, preferiria Florena, pensou ao deixarem o carro.
       Lorenzo a guiou em direo a uma porta, subiram um lance de escadas que os levou at um impressionante hall de entrada, no qual um igualmente impressionante
braso dominava a parede acima da porta principal. O mesmo braso que vira na lareira do grande hall do Castillo.
       - Venha... o elevador  por aqui. Meu apartamento fica nos dois ltimos andares. Escolhi esses apartamentos, quando remodelei o Palazzo, por causa da vista
- embora minha av costumasse se queixar pois queria que eu tivesse escolhido um apartamento no trreo. No gostava de lugares fechados ou elevadores.
       - O Palazzo? Quer dizer que o prdio todo...?
       - Era originalmente a casa de minha famlia? Isso mesmo. O Palazzo foi construdo pelo dcimo duque, que tinha muitos negcios em Florena. Enquanto meu pai
viveu, foi deixado de lado - assim como o Castillo. Quando o herdei tive que encarar duas escolhas: ou vend-lo ou reform-lo e descobrir uma forma faz-lo se pagar.
Convert-lo num prdio de apartamentos me pareceu a opo mais sensata. Desse forma, podia manter o controle sobre as obras.
       - Ento  aqui que vamos morar? - perguntou, ao sair do elevador e segui-lo por um hall elegante de mrmore em direo a um par de portas de madeira.
       - Algumas vezes vamos morar em Florena sim, e  por isso... - Interrompeu o que estava prestes a dizer para destrancar as portas.
       Outro hall: um espao vasto, retangular e p direito alto. O teto era convexo no centro, pintado com cenas alegricas da mitologia, enquanto as paredes eram
cobertas de quadros.
       - Minha famlia foi, no passado, mecenas das artes. O dcimo primeiro duque adorava entreter os visitantes ingleses que vinham a Florena nos sculos XVII
e XVIII. Promovia festas no Palazzo e os sales da amante eram famosos.
       - Os sales da amante?
       - O duque era uma espcie de rebelde. Enquanto permanecia em Florena onde morava com a amante, a esposa e os filhos eram banidos para uma vila fora da cidade.
Era um grande patrono da beleza em todas suas formas. Causou escndalo ao ter a amante retratada numa srie de quadros, cada um numa diferente posio sexual pronta
para receb-lo. Corria o rumor de que, na verdade, para que o artista pudesse retratar fielmente os ngulos corretos do corpo, os esboos originais foram feitos
enquanto ela e o duque faziam amor. Mas a figura do duque foi removida pela artista na pintura final, para que seu patrono pudesse visualizar o corpo da amante como
se ela estivesse  sua espera.
       - Ah! A artista era uma mulher.
       Lorenzo deu de ombros.
       - Meu ancestral deve ter receado que para um artista homem um trabalho to ertico estivesse alm de seu controle. E corre o rumor que Cosimo persuadia a
artista a abandonar o trabalho e unir-se a eles na busca do prazer sexual.
       Jodie no pde se conter e olhou as paredes. Lorenzo comentou:
       - No vai encontr-las aqui; desapareceram h muito tempo - roubadas, dizem, por ordem de Napoleo. Ele ouvira falar delas e as queria. Se ainda existem,
devem pertencer a algum colecionador particular. - Lorenzo voltou a dar de ombros. - O valor no estava na mo da artista que as pintou, mas em sua notoriedade.
       Olhou o relgio.
       - Quase 4h da tarde. Pedi que marcassem hora para voc em um ateli na Via Tornabuoni. A gerente compreende a situao e vai ajud-la a escolher um guarda-roupa
adequado - incluindo um vestido de noiva. No  muito longe daqui e...
       - No! - Jodie viu o olhar altivo de Lorenzo. Obviamente no gostava de ter seus planos contestados. Azar. No ia ser tratada feito uma boneca avoada que
podia ser vestida por ele, com roupas caras, para satisfazer-lhe o modelo ideal de esposa.
       - Concordo que preciso comprar algo adequado para o casamento, mas sou perfeitamente capaz de fazer minhas prprias escolhas e pagar com meu dinheiro. Pense
na quantidade de artefatos mdicos que pode doar s crianas necessitadas em vez de gastar dinheiro com roupas para mim.
       - Seu ponto de vista  vlido - concordou. - Mas a sociedade italiana, como qualquer outra, tem suas regras e obrigaes. Se a minha esposa no se vestir
como as outras, vo fazer comentrios que podem levantar suspeitas quanto  validade de nosso casamento. Isso, por sua vez, poderia levar  contestao legal dos
termos do testamento. Na verdade, no duvido que Caterina v tentar tudo que estiver a seu alcance para isso. E, uma vez que a finalidade desse casamento  atender
aos referidos termos,  necessrio que ambos atendamos s expectativas da sociedade. Se voc se sentir melhor, posso doar uma quantia igual  que voc gastar com
roupas.
       - Isso  suborno - respondeu, mas Lorenzo se afastou, deixando-a sem escolha a no ser segui-lo.
       Para sua surpresa, a galeria terminava numa secunda, tambm retangular e ainda mais comprida, contendo quadros e esculturas mais modernos.
       - Como meus ancestrais, substituo minha falta de habilidade artstica apoiando aqueles que a possuem. - Lorenzo explicou. Mas Jodie no o escutava direito.
Toda ateno estava voltada pra uma grande parede no meio da galeria onde se viam desenhos pouco elaborados, que pareciam feitos por crianas.
       - Ah, meus mais valiosos artistas.
       Jodie olhou-o insegura.
       - Parecem desenhos de crianas.
       - E  isso o que so. Esses desenhos foram feitos por crianas, vtimas de guerras, que perderam algumas vezes, no sempre, a mo principal. Foram feitos
depois que receberam mos mecnicas.
       Lgrimas brotaram dos olhos de Jodie. Piscando, disse:
       - No me admira que os valorize tanto.
       Ele virou-se.
       - Vou apresent-la a Assunta, minha governanta. Ela vai lhe mostrar o resto da casa enquanto fao umas ligaes.
       Em outras palavras, estava entediado com sua companhia e queria livrar-se dela, pensou dez minutos depois, ao ser entregue aos cuidados de uma mulher de meia-idade
de olhos espertos que a submeteu a uma anlise detida e depois inclinou a cabea. Num ingls excelente, disse calma:
       - Queira me acompanhar, por favor...
       Meia hora depois Jodie visitara todos os aposentos do apartamento, que ocupava no apenas um, mas dois andares do Palazzo e inclua um jardim na cobertura.
       Estava claro que Lorenzo preferia o design moderno ao antigo, mas tinha que admitir que as linhas da moblia complementavam os espaosos aposentos com p-direito
alto.
       Seu quarto, localizado em frente ao de Lorenzo, tinha sala de vestir e banheiro. Para alvio de Jodie, Assunta descontraiu-se e explicou ter trabalhado em
Londres, num restaurante do primo do pai, e por isso aprendera ingls. Agora viva, valorizava sua independncia e acrescentou que at o momento estava satisfeita
em trabalhar para Lorenzo.
       - No vou interferir na maneira como voc cuida da casa - assegurou-lhe, pegando a deixa. No ia mesmo! Duvidava que Lorenzo fosse agradecer-lhe por ser a
causa do pedido de demisso da governanta.
       - Minha prima Theresa  a governanta da vila, perto de Sienna.  um timo lugar para se criar bambini, com bastante espao e ar fresco.
       Outra dica? pensou, enquanto tomava banho, lembrando-se da conversa. Bem, certamente no iria dar bambini a Lorenzo. O chuveiro continuou a molhar-lhe a pele
com a ducha forte enquanto ficava parava e imagens de crianas pequenas de cabelos escuros apareciam.
       Ouviu uma batida na porta do banheiro e Lorenzo chamando:
       - Est na hora de sairmos.
       - Estou quase pronta - mentiu. Acreditando no que ela dissera, ele entrou no banheiro.
       Era possvel ser pega numa situao to desvantajosa, nua e pingando? pensou, as bochechas coradas, enquanto Lorenzo cruzava os braos e se apoiava na porta
fechada.
       - Isso  quase pronta?
       - No vou demorar a me enxugar e me vestir... - E levaria menos tempo ainda se ele no ficasse parado entre ela e a toalha felpuda no toalheiro do outro lado
do banheiro. Por que no ia embora? Esperava que ela passasse por ele nua enquanto ele a submetia a uma anlise detalhada, como fazia agora, estudando abertamente
suas pernas? No era seu hbito, mas virou-se de lado, tentando esconder a perna lesada, esquecendo-se dos seios e do tringulo de plos que lhe cobriam o sexo.
       - Quer dar uma olhada na minha perna? Sei que as cicatrizes no so bonitas, mas no se preocupe - posso cobri-las.
       Lorenzo levou um tempo movendo o olhar das pernas para o rosto, o corao quase explodindo.
       - Talvez devesse mandar pint-la assim. Uma ninfa das guas, com pernas compridas o suficiente para fazer um homem imaginar como se sentiria ao t-las enroscadas
nele. Ou talvez deitada numa cama coberta de seda, com as pernas abertas, implorando pelo toque dos lbios do amante contra a carne macia. Essas so posies sexuais
que exigem... No! No olhe para mim com esse olhar faminto de virgem nos olhos - disse srio. - Ou ento vou ficar tentado a satisfazer essa fome.
       - Foi voc quem entrou aqui. No o convidei.
       - Mentirosa. Voc me convida toda vez que me lana esses olhares virginais que traduzem a curiosidade sobre como ser deitar-se com um homem.
       - No  verdade - disse inflamada. - Se quisesse ter sexo com um homem, o que no quero, voc seria o ltimo homem que escolheria.
       Percebeu imediatamente que fora longe demais. Lorenzo era um macho to arrogante que no havia chance de deixar que ela escapasse, depois desse desafio 
sua masculinidade. Tarde demais. Ele caminhava em sua direo, ignorando tanto seu grito de protesto quanto o efeito que o corpo molhado causava nas roupas dele,
ao arranc-la do chuveiro e peg-la no colo.
       - Me coloque no cho - pediu, mas Lorenzo no a escutou. Carregou-a em direo  cama, deitando-a na coberta de seda verde-claro e a manteve l.
       Ajoelhou-se e perguntou suave:
       - Ento, o que mais quer saber? Como  sentir a carcia de um homem aqui? - Ainda segurando-lhe o ombro com a mo esquerda, escorregou os dedos da mo direita
por toda a extenso do corpo at o joelho e depois lentamente acariciou a parte interna das coxas.
       Indefesa, fechou os olhos quando a carne absorveu o toque e reagiu com uma srie de arrepios sensuais que ricocheteavam sem parar.
       - Ah, ento voc gosta? E disso? - Os lbios cariciavam o ponto sensvel atrs da orelha, transformando o desejo numa pulsao faminta.
       Jodie gemeu em protesto. No tinha o direito de lazer isso com ela.
       Mas Lorenzo tinha obviamente interpretado mal seu gemido, porque murmurou:
       - Mais curiosidade? Muito bem, ento vai ter a resposta. - A mo acariciou-lhe o corpo indo at o seio, segurando-o e depois esfregando o dedo no mamilo inchado
at que tudo que ela pde visualizar, em pensamento, foi a lngua movendo-se em crculos no mamilo e lambendo-o ritmadamente.
       O desejo nunca representara problema para ela: no satisfaz-lo era o problema. Sempre imaginou que se sentiria assim, mas a imaginao no chegava perto
da realidade, percebeu quando segurou os cabelos escuros e fartos de Lorenzo e empurrou-lhe a cabea em direo ao mamilo. Na luz da tarde que enchia o quarto atravs
das frestas da persiana, podia ver a ereo de Lorenzo e sentiu um doce triunfo diante da excitao dele.
       - Ainda curiosa? - A lngua de Lorenzo lambeu o mamilo sensvel. O corpo arqueou-se na direo dele pedindo mais. A palma mo dele foi parar entre suas pernas,
cobrindo-lhe o sexo. Instintivamente, prendeu a respirao, desejando que ele separasse os lbios fechados de seu sexo e encontrasse o calor mido que esperava ansiosamente
por ele. Realidade, razo, responsabilidade foram esquecidas. Estava possuda por uma febre sbita que comandava todo seu sistema. Os dedos experientes atenderam
o pedido silencioso, separando as partes macias e a acariciando lenta e demoradamente, fazendo-a gritar enquanto o corpo sacudia-se em resposta.
       - Agora voc v aonde sua curiosidade a levou - ouviu Lorenzo dizer. Mas no parou de lhe dar prazer. Pelo contrrio, o toque se tornou mais forte, mais profundo
at que a excitao transformou-se numa convulso violenta e explodiu num intenso orgasmo.
       Permaneceu deitada, recusando-se a olhar Lorenzo. Sentia-se envergonhada e prxima s lgrimas. No porque tinha tido um orgasmo - afinal no era a primeira
vez... Mas daquele jeito? Com aquele homem?
       - Voc no devia ter feito isso - finalmente conseguiu dizer.
       - No - concordou Lorenzo. - No devia.
       Jodie fechou os olhos. Ele se levantou.
       - Vou ligar para a loja e avisar que chegaremos atrasados.
       Por que tinha deixado isso acontecer? Por que no o impediu? A letargia ps-orgasmo a dominava, enquanto tomava outro banho e se vestia o mais rpido possvel,
prometendo a si mesma que isso jamais voltaria a acontecer. Lorenzo era um homem - e italiano - provavelmente machista. E  claro que reagira assim para deixar claro
quem mandava. Fora isso, no fazia idia do motivo de ele ter agido assim.
       Lorenzo estava no estdio. Olhava pela janela. No era o tipo de homem que se permite ser levado pelas necessidades do corpo, ento por que sucumbira agora?
Ela era apenas uma mulher, s isso e nem era uma mulher sexualmente disponvel.
       No era sexualmente disponvel, mas correspondia sexualmente... Lorenzo fechou os olhos e imediatamente reviu Jodie deitada nua na cama, entregando-se ao
prazer... um prazer que ele lhe proporcionara. Imediatamente, ainda insatisfeito, sentiu a ereo. No a podia desejar tanto assim. Querer a virgem que havia escolhido
como esposa, por motivos puramente prticos, era uma complicao que no precisava no momento.
       Como tinha conseguido encontrar uma virgem, sexualmente curiosa e faminta, que o olhava convidativamente como Eva? Mas no tinha tempo para procurar outra
substituta. No momento Caterina ainda estava chocada o suficiente para que ele ganhasse vantagem na guerra entre eles mas, uma vez recuperada do choque, voltaria
s artimanhas e compls sutis nos quais era mestra. Alm disso, a essa altura toda Florena j conhecia a identidade da sua futura esposa.
       O que se veste para comprar roupas numa loja chique? pensou. Provavelmente no o que ela estava vestindo - o nico jeans limpo e uma camiseta - mas no tinha
jeito, s trouxera o essencial para a Itlia.
       Finalmente conseguiu encontrar o caminho para o salo principal. Assim que entrou, ele a avisou:
       - O que aconteceu hoje no deve se repetir.
       Ele a olhava, falava com ela - quase lhe dava uma lio de moral! - como se ela fosse culpada, reconheceu indignada ao entrarem no elevador.
       - Voc tem toda razo. Mas no fui eu quem provoquei.
       - Talvez no. Mas no me fez parar, fez? - O elevador chegou ao trreo.
       - Por que os homens sempre culpam as mulheres quando eles  que... - Comeou exaltada at ser interrompida por Lorenzo.
       - Foi Eva quem ofereceu a ma a Ado - lembrou-a, enquanto abria a porta do elevador para ela.
       - A eterna desculpa dos homens. A mulher me tentou...
       - Ento voc admite? - retorquiu, enquanto a guiava at a sada do prdio.
       - No admito nada - respondeu zangada, piscando por causa da luz forte.
       - Vai levar menos tempo se formos a p at a Via Tornabuoni. - Pegou-lhe o brao e assinalou o caminho que deviam seguir, ignorando-lhe a fria. - Por aqui.
Vamos cortar por esse beco que vai dar numa praa.
       Jodie esqueceu o aborrecimento e ficou sem respirao diante da beleza do lugar. Queria olhar tudo  sua volta, mas Lorenzo a apressava para a praa. Passaram
por uma rua estreita, onde uma igreja antiga espremida entre os prdios, convidava os passantes com suas portas abertas.
       A Via Tornabuoni era uma avenida larga cheia de prdios imponentes e lojas ainda mais imponentes - tanto que Jodie se surpreendeu recuando ao chegar  loja.
Um porteiro uniformizado abriu a porta. Uma jovem bem-cuidada, magra e penteada imaculadamente, parecendo mais um modelo do que uma vendedora surgiu, a ateno focada
mais em Lorenzo do que em Jodie.  claro que no podia entender o que ele dizia, mas no havia como no compreender o impacto causado. Foram conduzidos ao fundo
da loja numa rea privada onde a Srta. Bem-cuidada desapareceu, sendo substituda por uma mulher ligeiramente mais velha e ainda mais deslumbrante, que se apresentou
como a direttrice da loja.
       - Recebi seu recado e o passei ao maestro - informou em ingls. - O estilista selecionou vrios vestidos e os enviou de Milo. - Deixava claro que deviam
se sentir honrados, refletiu, mas tinha que admitir que era igualmente bvio que a direttrice estava bastante impressionada com Lorenzo.
       Olhou Jodie e suspirou:
       - Bene, sua noiva no  alta, mas tem as medidas certas para nossas roupas. Se puder me acompanhar...
       - Tenho vrios compromissos - desculpou-se Lorenzo. - Mas sei que posso deixar minha noiva em suas mos. Venho busc-la em duas horas.
       A direttrice ficou desapontada, mas resignou-se. Jodie, ao v-lo sair disse a si mesma que era ridculo se sentir abandonada.
       Foi levada a uma sala particular, onde instalou-se numa cadeira dourada enquanto era apresentada a uma seleo de vestidos de noiva que, segundo explicou
a direttrice, faziam parte da ltima coleo.
       Jodie no era uma viciada em moda, mas eles eram muito especiais. Foi forada a admitir que corria o perigo de perder a cabea. Mas, s podia levar um e ela
selecionou um vestido que, na verdade, era um corpete ajustado com uma saia elegantemente franzida que vestiu muito bem.
       A direttrice aprovou:
       - Sim, esse  o vestido que escolheria para voc.  bem simples, mas muito elegante; na verdade, um vestido de casamento para uma princesa. Calculamos seu
nmero a partir da descrio do Duque. Tantas vezes um homem nos diz uma coisa e descobrimos...
       - Deu de ombros, resignada. - Mas felizmente o Duque estava certo.
       Meia hora depois, olhou-se no espelho. Uma jovem, quase uma estranha, a olhava. Jodie piscou e sentiu os olhos encherem-se de lgrimas emocionadas. Se seus
pais a pudessem ver vestida assim. O vestido a fazia parecer mais alta, e realava a cintura fina. Um casaquinho de renda com mangas 3/4 escondiam-lhe a pele. A
cauda era to comprida e pesada que ficou preocupada achando que no ia conseguir sustent-la.
       - Est perfeito - a direttrice balanou a cabea.
       - O maestro vai ficar to satisfeito... Quanto s outras coisas de que precisa...
       Passou-se outra hora at que a direttrice finalmente se declarasse satisfeita. Jodie tinha um terno bem-modelado que podia ser usado  noite ou de dia, uma
seleo de blusas para combinar, dois pares de calas incrivelmente bem-cortadas, um casaco de vero com uma saia combinando, dois bonitos vestidos, sapatos, bolsas
e uma enorme quantidade de "itens-para-o-dia-a-dia" como a direttrice os chamou, da linha mais casual. A nica maneira de suavizar a culpa diante de tamanho consumismo
seria insistir para que Lorenzo mantivesse a promessa de doar o equivalente ao custo das roupas novas.
       Comeava a se sentir cansada e ficou aliviada quando a porta abriu e Lorenzo entrou.
       - Tem tudo de que precisa? - perguntou.
       Jodie fez que sim.
       Agradecendo a direttrice, que prometeu mandar entregar as peas que precisavam de pequenos consertos no apartamento, na tarde seguinte, Lorenzo conduziu-a
de volta  rua, agora escura.
       - Est com fome?
       - Muita - admitiu.
       - Tem um restaurante aqui perto onde servem uma comida tpica simples, mas excelente.
       O restaurante estava localizado numa rua estreita, as mesas na calada, poucas vazias.
       - Se me permite, posso recomendar algo... - ofereceu Lorenzo quando estavam sentados e o garom tinha trazido os cardpios.
       - Por favor, mas nada muito pesado, seno no consigo dormir.
       - Muito bem. Ento, para comear, que tal opinzimonio, que so legumes frescos com azeite?
       - Parece perfeito.
       - Depois, se no for muito pesado para voc, pode tentar a lasagne ai forno.  a especialidade de Florena e diferente de todas as outras lasanhas que; provou
- garantiu-lhe.
       Sorrindo, Jodie sacudiu a cabea.
       - O que voc vai pedir?
       - De entrada, o affettati misti, uma seleo de carnes frias, e como prato principal o Calamari in zimino, lula - explicou e Jodie fez uma careta.
       Famlias inteiras comiam juntas, notou, com um pingo de inveja. Sua famlia era David e Andrea e embora os dois se dessem bem, havia uma diferena de nove
anos entre eles. David j estava casado quando seus pais morreram e os pais dele tinham voltado para o Canad, pas de origem da tia.
       - Providenciei para irmos ao banco amanh de manh - dizia Lorenzo. - E preciso assinar alguns documentos. Abri uma conta para voc e o anel de noivado da
famlia est no cofre, junto com outras jias. O anel precisar ser limpo e possivelmente ajustado - embora, como voc, minha me tivesse dedos muito finos.
       O primeiro prato chegou. Jodie descobriu que estava quase sem apetite.
       - Algo errado? - perguntou Lorenzo.
       - No me agrada usar uma pea valiosa - disse com sinceridade. - Especialmente quando  uma relquia de famlia. E se eu a perder?
       - Sou o chefe da famlia e voc vai ser minha mulher. A tradio  que use o anel de noivado da famlia - disse com firmeza.
       - No posso usar uma cpia? - insistiu.
       Lorenzo franziu a testa.
       - Se isso a incomoda tanto, vou pensar no assunto. Agora coma - ou Carlos vai achar que no gostou da comida e, para um florentino, isso seria um insulto.
       Na manh seguinte, Lorenzo permitiu que Jodie apreciasse com mais calma a cidade, enquanto caminhavam at o banco. Usava uma das roupas novas: um traje que
tinha apelidado de Roman Holiday, porque consistia numa cala Capri de linho estampado ferrugem e bege de cintura baixa, combinando com uma blusa lisa ferrugem.
Sandlias de tiras e uma bolsinha completavam o modelo.
       Estava to maravilhada que no percebia os olhares dos homens, mas Lorenzo percebia. As mulheres eram vulnerveis  admirao dos homens; isso lhes inflava
o ego, como j sabia. Mas no se importava com o quanto outros homens achassem Jodie desejvel pois no sentia nada por ela, nem ia se permitir sentir nada agora.
       - Por aqui.
       A instruo curta de Lorenzo lembrou Jodie o quanto detestava a arrogncia dele. No sentia nada, a no ser pena, pela pobre mulher que eventualmente viesse
a ser sua esposa "de verdade".
       Nos dias de hoje, Florena era famosa pelas obras de arte, mas houve um tempo em que sua fama repousava na reputao dos banqueiros - dos quais a famlia
Mediei fazia parte, lembrou-se Jodie quando entraram no banco frio e escuro, com aparncia de catedral.
       As formalidades da abertura de uma conta bancria para ela foram imediatamente resolvidas, permitindo que eles fossem conduzidos pela escadaria de mrmore
a uma sala impressionante vigiada por dois guardas armados. Entregaram uma chave e os escoltaram a uma das vrias saletas privadas, mobiliadas com uma mesa e vrias
cadeiras. Tiveram que esperar que o gerente e um dos guardas armados voltassem com uma caixa trancada, que foi colocada na frente de Lorenzo. Ele pegou a chave e
colocou-a na fechadura. S ento foram deixados a ss.
       Apenas o som do ar condicionado quebrava o silncio. Jodie literalmente prendia a respirao.
       Lorenzo levantou a tampa da caixa. Rapidamente Jodie afastou o olhar. Tinha sentimentos contraditrios sobre jias antigas e valiosas. Para ela, sempre pareciam
possuir uma histria sombria - no s por causa da forma como tinham sido extradas, mas tambm pelos atos de crueldade e mesquinharia das pessoas para possu-las.
No era de admirar que dissessem que pedras de preos inestimveis eram amaldioadas.
       Lorenzo olhou dentro do cofre. A ltima vez que a abrira tinha sido logo depois do falecimento da me. Teve o impulso de bater a tampa, peg-la pela mo e
sair para a luz e o calor do sol. Mas no podia agir assim. Era um Montesavro, o chefe da famlia e alm do mais, que fantasma - se  que existiam - poderia ocultar-se
nesse pedao de metal? Os dedos fecharam-se em torno da familiar caixa de veludo que lhe lembrava a infncia.
       - Aqui est - disse bruscamente, fechando o cofre e trancando-o antes de abrir a caixa do anel.
       - Diz a lenda que quando uma mulher pura coloca o anel, a pedra brilha com uma claridade particular. Minha me sempre culpava a pedra de estar embaada -
acrescentou cnico, enquanto Jodie olhava incrdula a imensa esmeralda retangular rodeada de diamantes cintilantes.
       - No posso usar isso - protestou. - Ia morrer de medo de perd-lo. No ia me sentir segura a no ser que tivesse sempre um guarda armado comigo. Deve valer...
- Sacudiu a cabea e Lorenzo franziu o cenho, reconhecendo na voz dela, no excitao mas desgosto. Uma mulher que no ficava aborrecida por usar uma jia cara?
Esse tipo de mulher estava to distante das que conhecera que no podia imaginar que ela existisse.
       - Vamos ver se serve em voc, antes de discutirmos se vai ou no us-lo - disse frio.
       A mo de Jodie tremeu quando Lorenzo segurou-lhe o pulso e deslizou o anel pelo seu dedo. S o peso a fazia se sentir desconfortvel. Jodie tentou retir-lo.
       - No, deixe!
       O tom peremptrio da voz de Lorenzo chocou-a a ponto de paralis-la.
       Lorenzo ficou apreensivo ao estudar o anel, levantando-lhe a mo para poder inspecion-lo mais de perto.
       - O que est errado?
       - Olhe para ele e me diga o que v.
       Relutante, obedeceu.
       - No vejo nada - disse, confusa.
       Nem ele, reconheceu Lorenzo. O anel estava totalmente livre do vago embaado que deixava a me to insatisfeita. Um golpe de sorte? A diferena de reaes
qumicas da pele de uma mulher para outra? Devia haver uma razo lgica para a limpidez da esmeralda quando usada por Jodie.
       Indiferente s emoes conflituosas que Lorenzo tentava reprimir, Jodie tirou o anel e devolveu-o.
       - Estou falando srio: no vou us-lo.
       - Vamos ver. Certamente ter que us-lo no domingo, quando formos  igreja para a leitura dos proclamas - informou-a Lorenzo.
       Ela conhecia algum que ia morrer de inveja do seu anel de noivado, pensou meia hora depois, aps terem deixado o banco. Esse algum era Louise. Podia imaginar
a reao dela se comparecesse ao casamento deles usando esse anel! Automaticamente, para se animar, tentou visualizar seu momento de triunfo - mas, de alguma forma,
a enlevao desejada no estava l. Mas esse era o nico motivo de ter se metido nessa situao, permitindo que a intimidassem, manipulassem... e fizesse amor...
com Lorenzo. Ou no?
       CAPTULO NOVE
       Devia haver milhes de outras maneiras piores de passar os prximos doze meses do que explorar essa maravilhosa cidade, pensou Jodie feliz ao deixar, relutante,
o Palcio Mediei e dirigir-se  Piazza Signoria.
       Tinha o dia s para ela j que Lorenzo anunciara mais cedo que tinha compromissos profissionais e s voltaria depois do almoo. No que ela se importasse
- nem um pingo. Apenas a viso de tantos casais passeando de mos dadas a lembravam da ausncia daquela presena dominadora e autoritria. Como poderia ser diferente?
Estava determinada a no baixar a guarda emocional com nenhum homem e, mesmo que no fosse assim, seria uma idiota completa de se apaixonar por um homem como Lorenzo.
       No, era apenas o sol de vero e o efeito da cidade que lhe davam essa tristeza.  claro que se Lorenzo estivesse com ela, seria capaz de contar detalhes
da cidade melhor do que qualquer guia. Mas lembrou-se da tenso, mesmo quando discutiam os assuntos mais banais, que a deixava nervosa como se estivesse sempre com
a adrenalina a mil, o corpo esperando... O qu? Que a tocasse novamente? Seus pensamentos a conduziam por caminhos perigosos...
       Tentou concentrar-se na praa, nas famosas esculturas, parando para checar o guia. Enquanto morasse ali, poderia tentar aprender italiano e tornar aquele
ano algo til para adicionar ao CV. Assim, ocuparia a cabea, em vez de sentir o corpo assaltado pela excitao. Claro que Lorenzo seria um timo amante, pensou.
No precisava fazer amor com ele para saber!
       A cidade estava cheia de turistas e quando chegou ao Uffizi, tendo decidido deixar para explorar o Palazzo Vecchio em outra ocasio, comeou a sentir cansao
e sede. Havia um bar na praa, perto do apartamento, e no demoraria para chegar l.
       A pequena praa estava to cheia que achou que no conseguiria uma mesa. Finalmente, encontrou uma e sentou-se com um suspiro de alvio.
       Meia hora depois, terminava a segunda xcara de caf quando um italiano jovem e bonito aproximou-se da mesa.
       - Scusi, signorina - desculpou-se sorrindo sedutor. - Posso me sentar em sua mesa? O bar est cheio e...
       Ele era muito atraente e obviamente um especialista em reconhecer turistas solitrias, refletiu divertida ao retribuir o olhar.
       Do outro lado da praa, Lorenzo olhava o velho quadro descortinar-se  sua frente. Jovens florentinos tradicionalmente passavam os meses de vero flertando
com turistas ingnuas. Isso era to comum que era considerado um rito de passagem que comeava com discretos flertes, nas ruas da cidade e terminava no quarto de
hotel e outro nome na lista. E  claro que Jodie, com seu corpo feminino to ansioso por recuperar o tempo perdido na adolescncia, mesmo que no reconhecesse isso,
sem dvida cairia nas mos desse jovem florentino como uma laranja madura.
       Lorenzo j podia ver como correspondia ao seu admirador, afastando ligeiramente a cabea para olh-lo, sem dvida sorrir... Quantas vezes tinha visto a me
dar aquele mesmo sorriso ao amante, quando, ainda pequeno, ela o usava para camuflar os primeiros encontros? Quando ele tambm tinha sorrido inocente para o homem
com o qual ela planejava trair seu pai. Bem, no ia lhe dar a oportunidade de seguir o exemplo da me dele, no importa o quo profissional seu casamento fosse.
Decidido, caminhou para o caf.
       - Pode ficar com a mesa - disse gentilmente. - Eu j estava saindo.
       - No... por que no fica e deixa que eu lhe convide para outra xcara de caf? - sugeriu, inclinando-se e tocando-lhe o brao com a mo.
       Imediatamente Jodie levantou-se e deu um passo atrs, sacudindo a cabea enquanto educadamente recusava o convite.
       - No, obrigada. - Pde perceber a surpresa nos olhos dele e teve que se controlar para no rir. Ele era muito bonito e, sem dvida, costumava ser bem recebido
e no recusado.
       Lorenzo estancou abruptamente ao ver a maneira como Jodie levantou-se da mesa e sacudiu a cabea. A linguagem corporal deixava bem claro seus sentimentos
e ele pde ver pela postura do jovem que tinha conscincia, assim como Lorenzo, de ter sido dispensado.
       Jodie levou a conta at o caixa e depois de pag-la, comeou a andar em direo ao apartamento de Lorenzo. Lorenzo ficou remoendo o pequeno incidente na cabea,
franzindo a testa. Tentou visualizar sua me ou Caterina fazendo o que Jodie tinha acabado de fazer, na mesma situao, sabendo que nenhuma das duas teria se afastado
como ela fizera. Seria Jodie diferente? Seria ela aquela rara mulher que no era movida pelo ego e pela vaidade, que no precisava da constante ateno de novos
admiradores?
       Ao passar pelo caf, seu patrcio j estava de olho em outra turista que, a julgar pela maneira como sorria, apreciava mais seu empenho do que Jodie havia
feito.
       Tornara-se impossvel entrar no apartamento sem parar na galeria das "crianas corajosas". Via sempre algo diferente nos quadros, Numa mesa baixinha, abaixo
das pinturas, havia um lbum forrado de couro no qual Lorenzo anotara detalhes de cada criana cujo trabalho estava exposto na galeria. Estava lendo quando Lorenzo
entrou.
       - Cansou de fazer turismo?
       - Meus ps se cansaram - admitiu. - Ento resolvi voltar e ler um pouco. Comprei um monte de livros sobre Florena durante meu passeio. Alguns tm descries
em lnguas diferentes, mas pensei que enquanto estiver aqui, gostaria de aprender italiano.
       - Uma vez que vamos ficar ora em Florena, ora no Castillo, talvez no fosse adequado se matricular num curso, se  nisso que estava pensando. Mas podamos
contratar um professor particular - props Lorenzo, acrescentando: - J almoou? Fez que no com a cabea.
       - Parei para tomar um caf na praa. - Fez uma pausa e torceu o nariz.
       - No gostou?
       - O caf estava timo, mas fui abordada por um desses paqueradores profissionais.  um dos inconvenientes de estar sozinha.
       - Algumas mulheres gostam da paquera.
       Jodie fechou o lbum e levantou-se.
       - Bem, eu no gostei.
       Lorenzo percebeu que estava sendo sincera.
       - Por que no pede a Assunta para preparar um almoo e servi-lo no jardim da cobertura? Pode ler seus guias para mim se quiser - em italiano.
       Jodie o olhava atnita e Lorenzo teve que admitir que estava to surpreso quanto ela. Tinha pensado em passar a tarde trabalhando e no brincando de professor
particular.
       Ela no queria estar ali e hesitou na porta da igreja onde os proclamas seriam lidos pela primeira vez.
       Embora percebesse sua relutncia, Lorenzo deu um passo  frente e pegou-lhe o brao para no lhe deixar escolha. Teve que decidir o que vestir, optando por
uma saia de linho branco e uma camiseta de mangas curtas marrom, sobre a qual enrolou um dos lindos xales de seda multicolorido que encontrou junto com as novas
roupas, provavelmente uma lembrana da loja. Se necessrio, poderia cobrir a cabea com o xale.
       Ficou contente por ter optado por cores escuras ao ver Lorenzo vestido com um terno formal escuro, camisa branca e gravata. Incapaz de deixar de olhar para
ele ansiosa, entrou num mundo totalmente desconhecido para ela. Reconheceu o quo arrogante ele se comportava. Se tirasse o terno e o vestisse com um traje de militar,
ele poderia ser um prncipe Mediei da Renascena, pensou com um arrepio.
       A enorme esmeralda no dedo faiscava  luz do sol e algum da pequena congregao, passando pela porta estreita, deu um suspiro - no sabia dizer se de surpresa
ou choque, Embora ningum falasse, era bvio, pelos olhares trocados, que conheciam Lorenzo e Jodie sentia o peso da avaliao repousando nela bem como o do anel
de noivado.
       As pessoas entravam no interior escuro da igreja e esgueiravam-se, ajoelhando imediatamente em orao e Jodie virou-se em direo ao banco mais prximo, mas
Lorenzo sacudiu a cabea e continuou andando. Os passos ecoavam no piso de pedra. No altar, o padre ajoelhou-se, a cabea curvada em orao, enquanto a fumaa do
incenso subia sob a luz que atravessava os vitrais.
       Tinham alcanado o primeiro banco e os olhos de Jodie esbugalharam ao reconhecer o braso entalhado na madeira. Pouco  vontade, curvou a cabea para rezar.
Rezou por seus pais, por David e Andrea, por seus amigos e por todos aqueles que estavam em dificuldade e depois, para sua surpresa, pegou-se rezando para que Lorenzo
pudesse fazer as pazes com seu passado.
       Embora soubesse o motivo de estarem na igreja, ainda no estava preparada para ouvir os proclamas - ou a emoo e tumulto sentidos. Imagens desconexas turvaram-lhe
a viso: um dia ensolarado, os pais sorrindo para ela enquanto caminhavam juntos; o choque de tomar conhecimento da morte deles; os rostos infelizes da tia e do
tio tentando explicar o que acontecera e que ela corria o risco de perder a perna; a primeira vez que conseguiu ficar de p sozinha depois do acidente; a primeira
vez que John a convidara para sair, encabulado, no pequeno escritrio onde ela trabalhava para o pai dele; a primeira vez que ele a beijou e a decepo que sentiu
por no ter ficado muito excitada.
       A pequena cerimnia da qual tomaram parte deveria ench-la de orgulho. Deveria estar agora do lado de fora da igreja, sentindo-se feliz e no culpada.
       O padre sorriu afetuosamente, enquanto os congratulava, o que apenas aumentou o desconforto de Jodie. Ele era alto e surpreendentemente vigoroso, com um olhar
penetrante.
       - Se quiser discutir qualquer assunto comigo, minha filha, estou  sua disposio - disse, num excelente ingls.
       - O testamento de minha av fez com que mudssemos nossos planos de nos casarmos na Inglaterra e antecipssemos a data - informou-lhe Lorenzo, um pouco seco.
- E estamos gratos pela cooperao.
       O padre inclinou a cabea com gravidade e Lorenzo apoiou a mo nas costas de Jodie o que identificou como um gesto clssico de possessividade, conduzindo-a
com firmeza. Podia sentir o calor da mo atravs da blusa. Um pensamento teimoso apareceu, como a fumaa de incenso subindo em direo  luz: se estivessem apaixonados,
ela devia virar-se, olh-lo e sorrir e a mo lhe acariciaria a pele, numa mtua promessa, ao retribuir o sorriso. Mas no estavam apaixonados e ela no tinha o menor
desejo que estivessem!
       - No queria casar na igreja - disse, quando voltavam para o Palazzo. - Me senti to culpada quando o Padre Ignatius rezou por ns e pelo nosso casamento,
sabendo que no  um casamento de verdade.
       - Voc quer dizer que um casamento de verdade inclui vida sexual...
       - No - negou, mas percebia pela expresso do rosto dele que no acreditava. - Casamento de verdade  muito mais do que simplesmente sexo - insistiu.
       - Mas sexo faz parte - e voc, como ns dois sabemos, est perigosamente curiosa para experimentar ser possuda por ura homem.
       - Voc insiste em repetir isso, mas no  verdade!
       - Seus lbios dizem uma coisa,mas seus olhos dizem outra.
       Ela podia ser virgem, mas mesmo assim reconhecia a tenso sexual crescente entre eles, decidiu trmula.
       - Preciso voltar ao Castillo - disse Lorenzo subitamente. - Seria mais fcil deix-la aqui em Florena, mas j que estamos noivos h pouco tempo, seria melhor
se me acompanhasse. Quando ser a prxima prova do vestido de noiva?
       - Quinta-feira.
       - Bene, at l estaremos de volta.
       Jodie olhou o anel de esmeralda que acabara de tirar e guardar na caixa, antes de se preparar para dormir.
       Sabia que o apartamento tinha alarmes contra ladres, mas mesmo assim no lhe agradava a idia de manter aquele anel no quarto durante a noite e preferia
que ele estivesse sob os cuidados de Lorenzo.
       Fechou a caixa, pegou-a e saiu do quarto. Hesitou um breve instante, antes de bater na porta do quarto de Lorenzo.
       Seu rpido "Si?" fez com que entrasse explicando:
       - Trouxe o anel para voc. Queria que... - A voz desapareceu quando seu olhar repousou no torso dourado e liso revelado pela camisa desabotoada.
       - Voc queria o qu? - perguntou, passando por ela para fechar a porta antes de tirar a camisa. A corrente dourada do relgio brilhou na lmpada de cabeceira,
o plo escuro do corpo, pura sexualidade masculina, hipnotizando-a.
       A boca ficou seca. Tocou os lbios com a lngua, incapaz de responder, os sentidos tomados pela viso. Ele era to arrogante, devastadora, magnificamente
masculino.
       Se s de olhar aqueles ombros largos e aquele peito musculoso ficava assim, como ficaria se o visse totalmente nu? Soltou um suspiro profundo ao reconhecer
o desejo tomando conta dela.
       - O anel - conseguiu pronunciar, estendendo a mo na qual estava a pequenina caixa. - Quero que fique com voc.
       - Quer mesmo? Ou quer que eu fique com voc, para satisfazer sua curiosidade e satisfazer voc por tabela?
       Por baixo da raiva, um arrepio de excitao percorreu-a. Ele estava certo? Foi isso que inconscientemente viera buscar no quarto dele? Por que queria... esperava...
       Lorenzo percebeu-lhe os sentimentos. De alguma maneira, ela invadia-lhe os pensamentos, fazendo com que questionasse suas verdades - o que ele no queria
questionar. Podia ser mais capaz de esconder o desejo do que ela, mas isso no significava que a superasse em control-lo.
       - No vim aqui por esse motivo - protestou. - S no queria ser responsvel pelo anel. - Ser que ele conseguia ouvir em sua voz, como ela, a prpria dvida
quanto  motivao subconsciente?
       - Como tambm no quer ser responsvel pela sua virgindade? - sugeriu Lorenzo. - Voc est tomada por uma curiosidade virginal - admita! Ela est corroendo
voc, arde, mantendo-a acordada  noite, imaginando... desejando...
       - No - suspirou, mas sabia que podia estar dizendo sim. - No quero voc - disse impetuosamente.
       - No me quer, mas quer o que posso lhe dar: a experincia que o tempo internada no hospital lhe negou. Voc quer saber como  tocar o corpo de um homem,
ser possuda por um homem. Voc pode negar tudo isso com isso - disse debochado, esfregando o dedo em seus lbios entreabertos - mas eu podia colar meus lbios nos
seus e eles me diriam algo totalmente diferente.
       - No! - repetiu, mas olhava indefesa dentro dos olhos dele, parada, imvel quando ele se aproximou e lentamente percorreu-lhe os braos com as mos, dos
pulsos at os ombros. Tremeu, tamanho o prazer sensual e a expectativa. Ele a puxava para perto. To perto que o cheiro primitivo de macho engolfou-a. Colou os lbios
no colarinho com um gemido e beijou, sofregamente, o pescoo, antes de passar a ponta da lngua no pomo de Ado enquanto enfiava os dedos nos msculos dos ombros
e colava-se nele.
       Era isso o que acontecia quando uma mulher era virgem? se perguntou Lorenzo, lutando para controlar a vontade alucinada de sentir-lhe a boca por toda parte.
Essa necessidade selvagem - no pela possesso masculina, mas pelo direito de encontrar o prprio prazer da maneira que quisesse? E por que deveria impedi-la? Por
que no deveria deixar que ela encontrasse o prazer onde e da forma que desejasse?
       Desceu o olhar e viu os mamilos eriados, atravs da blusa de alas, e os instintos masculinos agitaram-se ferozmente. Segurou-lhe o rosto e tomou-lhe a boca,
imprimindo  lngua um ritmo lento enquanto abaixava a blusa com a mo livre at que os seios saltaram da roupa, mostrando sua cor creme e os mamilos marrons j
inchados de excitao.
       Jodie nem ouviu quando emitiu um gemido de prazer ao sentir a carne nua de Lorenzo contra a sua. Estava perdida na prpria volpia. O plo sedoso roava seus
j sensveis mamilos, a lngua atrs da orelha a faziam esfregar-se nele, numa excitao descontrolada.
       Jodie podia ver a imagem no espelho e viu Lorenzo segurar-lhe o seio e descer a cabea e acariciar-lhe o bico com movimentos erticos da lngua.
       Dessa vez quando curvou o corpo para entregar-se ao crescente prazer, ouviu o prprio grito de fmea faminta. Mas o som do prprio desejo apenas aumentou
a batida do sangue correndo em suas veias e espalhando um desejo carnal que lhe enfraqueceu os msculos e inundou-a numa auto-entrega.
       Quando Lorenzo segurou-a, passou os braos em torno dele e gemeu de prazer ao senti-lo sugar o bico do mamilo enquanto lhe tirava o resto da roupa.
       Quando a colocou na cama, ambos estavam nus e ele debruava-se sobre ela, beijando devagar seu corpo faminto. Podia ver a fora da ereo comprimir-lhe a
barriga e ela ansiava tom-lo entre as mos e acarici-lo.
       A sensao de Lorenzo contornando-lhe o umbigo com a ponta da lngua enquanto a mo lentamente acariciava-lhe a parte interna da coxa dilua qualquer tentativa
de externar algum tipo de resistncia. Seu olhar enlevado estava fixo, despudorada e avidamente, na ereo.
       Lorenzo levantou a cabea quando ela, hesitante, tomou-o na mo, os olhos abrindo-se ao deliciar-se com a textura e calor. Acariciou-o com fervorosa apreciao
e aprovao. Lorenzo fechou os olhos e suspirou, incapaz de suportar o prazer do corpo deliciar-se com a explorao curiosa.
       Como se sentia poderosa ao tocar Lorenzo desse jeito e como se sentia fmea, de um jeito que a conectava com a feminilidade universal. Era uma mulher despertando
a excitao num homem, uma mulher que controlava e comandava, obtendo e proporcionando prazer. Seus dedos exploravam e acariciavam, os lbios entreabertos e a respirao
exalavam um murmrio de prazer ao sentir que Lorenzo no conseguia se controlar. Ele se sentia to firme e, ao mesmo tempo, to malevel. Um desejo suave tomou conta
de Jodie e ela se sentiu tentada a inclinar a cabea e...
       - No!
       A rispidez da recusa de Lorenzo foi como um choque. Confuso e decepo escureceram-lhe os olhos ao encontrarem os dele e depois voltaram-se a fixar na rigidez
pulsante.
       Lorenzo sabia que se deixasse no seria capaz de se controlar. Ela j o tinha excitado alm de seus limites. Se a deixasse acarici-lo to intimamente, ia
possu-la.
       - Por que no? - protestou.
       - No podemos ir at o fim.
       Jodie insistiu pois tambm estava muito excitada e o desejo insatisfeito chegava a doer.
       - Por que no?
       - No tenho preservativos e no quero correr o risco de fazer um filho que no quero e que terei que sustentar
       - No teria sido melhor pensar nisso antes? - Afastou-se dele, saiu da cama, pegou as roupas e vestiu-se apressada.
       No ia deix-lo perceber o quanto a rejeio a fazia recordar-se do passado ou o quanto ele a ferira. E no queria que ele soubesse o quo envergonhada e
excitada estava.
       Como tinha sido tola acreditando que lhe controlava o desejo. Nesse relacionamento, no tinha controle sobre nada, decidiu amarga, enquanto praticamente corria,
desesperada para chegar ao quarto.
       CAPTULO DEZ
       Jodie ficou nervosa ao ouvir o som que esperava acordada. O rudo, agora familiar, da porta do quarto de Lorenzo sendo aberta devagarzinho.
       Em dois dias se casariam mas, em pelo menos quatro ocasies, Jodie ouviu Lorenzo deixar o quarto, tarde da noite, para voltar mais ou menos uma hora depois.
E Caterina ainda estava morando no Castillo, nos aposentos da falecida av de Lorenzo. Se Caterina tivesse posto em prtica a ameaa de ter Lorenzo de volta em sua
cama, tinha o direito de saber. Mesmo sendo apenas uma esposa de fachada.
       Saindo da cama, pegou o roupo e calou sapatos com sola de borracha. Estava decidida a pegar Lorenzo em flagrante. Ser uma esposa de fachada era uma coisa,
mas ser a esposa indesejada de um homem com uma amante era outra bem diferente. E no tinha inteno de deixar que ele a colocasse nessa situao.
       Apressou-se at o topo das escadas e enquanto olhava ansiosa para baixo viu a sombra de Lorenzo mover-se sorrateiramente pelo corredor. Determinada, correu
atrs dele, perguntando-se por que ele no tinha usado o corredor do andar de cima que levava aos aposentos de Caterina.
       Inmeras passagens estreitas levavam a um hall que unia a parte antiga  nova, acrescentada no sculo XVII. Aonde ele tinha entrado? Havia uma luz nas escadas
que conduziam ao andar inferior. Ofegando, nervosa, foi naquela direo. As escadas ficavam exatamente debaixo do apartamento de Caterina, ento talvez...
       Deu um grito apavorado quando, da escurido, uma mo segurou-lhe o pulso.
       - Que diabos est fazendo?
       - Lorenzo!
       Ele devia ter percebido que ela o seguia e esperou para surpreend-la.
       - Queria saber onde estava indo.  a quarta vez! que escuto voc deixar o quarto de madrugada - disse atrevida.
       - Voc estava me espionando?
       O olhar inquisidor a fazia sentir-se extremamente desconfortvel, mas no ia deixar que ele percebesse.;
       - Se vamos nos casar, tenho o direito de saber se voc faz sexo com Caterina.
       - O qu?
       - No me caso com voc, se isso estiver acontecendo. Estou falando srio.
       - Voc est dizendo que est bisbilhotando, me seguindo, por achar que ia me pegar na cama de Caterina?
       Colocado dessa forma, ele a fazia parecer uma psicopata, pensou culpada. Como poderia explicar que ao rejeit-la, demonstrando a mesma falta de interesse
sexual de John, havia no apenas aumentado sua insegurana, mas a fizera imaginar que, como John, Lorenzo satisfazia seus instintos sexuais com outra?
       - No pode negar que voc e ela j foram amantes.
       - J. Mas isso faz quase vinte anos; eu era um garoto.
       - Ela diz que voc ainda a deseja.
       - Ela pode pensar o que quiser, mas est enganada - disse com firmeza. Os dedos ainda seguravam-lhe o pulso. Sbito, ele soltou um palavro e perguntou: -
Quer saber aonde vou? Pois bem, venha comigo.
       Andava to rpido pelo corredor estreito, parecido com um tnel, que Jodie quase precisou correr. O ar era mido. Arrepiou-se e soltou uma exclamao chocada
ao chegarem a uma pesada porta e ouvir Lorenzo dizer sem emoo:
       - O corredor aqui embaixo era conhecido como via eternal, porque levava s masmorras e salas de tortura.
       - Salas de tortura? - repetiu em tom de repulsa. Lorenzo apenas sacudiu os ombros, enquanto destrancava e abria a porta.
       - Eram consideradas essenciais na guerra.
       - Nos tempos medievais, talvez. Mas...
       - No apenas nos tempos medievais - interrompeu Lorenzo, a voz e a expresso to ameaadoras que ela estremeceu.
       Atrs da porta, uma sala enorme e cavernosa com teto baixo e abobadado. Prateleiras de vinho vazias contra uma das paredes e uma goteira pingando.
       - No se preocupe - disse, seguindo-lhe o olhar ansioso. - O teto  seguro e o frio no ar, apesar de desagradvel, tem seus mritos.
       - Torturar mais os prisioneiros? - sugeriu Jodie, cortante.
       - O primeiro marido de minha av ficou preso aqui.
       A surpreendente falta de emoo na voz de Lorenzo a chocou.
       - Ele era contra Mussolini e cometeu o erro de verbalizar isso. Foi aprisionado e torturado na prpria casa. Minha av nunca conseguiu superar o trauma. Voltou
a casar-se, mas o corao ficou com ele. Muitas vezes me disse que se pudesse teria preferido retirar-se num convento e levar uma vida contemplativa, mas tinha prometido
a ele que daria  casa um herdeiro. O casamento com meu av foi arranjado pelo primeiro marido em seu leito de morte devido aos ferimentos infligidos pelos torturadores.
Eles roubaram muitas obras de arte e esvaziaram a cave- acrescentou, acenando para as prateleiras vazias. - Mas no conseguiram pegar um tesouro.
       Olhou atnita a sala fria e vazia.
       - Aqui?
       - No. Venha comigo.
       Conduziu-a por uma pequena porta que abria para outro lance de escadas.
       - Essas conduzem ao salo principal dos aposentos principais.
       - Os de Caterina? - perguntou insegura.
       - Ela dorme no quarto da minha av, que faz parte dos aposentos principais - motivo pelo qual uso as escadas para chegar ao salo, em vez de usar as escadas
do corredor principal.
       - No salo principal, escondida pelo tecido com que o primeiro marido de minha av mandou forrar as paredes, est uma srie de afrescos pintados por um discpulo
de Leonardo. Embora, de acordo com minha av, a lenda da famlia insista que foi o prprio Mestre quem os executou.
       Entraram num aposento grande e elegante, com as paredes cobertas de seda verde. O quarto estava negligenciado, empoeirado, mas reinava um suave cheiro de
rosas.
       - O Duque tinha medo que os homens de Mussolini pudessem reivindicar o Castillo por causa das pinturas, ento mandou cobri-las. Seu sonho era que um dia fossem
totalmente restauradas. Nossa famlia  grande e alguns membros acham que o Castillo deveria ser vendido. Minha av quis deix-lo para mim porque sabia que eu realizaria
a promessa que fez ao primeiro marido em seu leito de morte.
       - Ento por que estipulou a condio do casamento?
       - Isso foi por conta da interferncia de Caterina. Minha av era uma senhora gentil que s pensava nos outros. Depois da morte de Gino, Caterina teve a chance
de convencer nonna que nos amvamos em segredo e que eu queria me casar com ela. Ela  interesseira e o casamento com meu primo lhe deu status. Esperava subir ainda
mais, armando uma cilada para que eu me casasse com ela. S se interessa por dinheiro e posio social.
       Jodie ficou apreensiva. Seus instintos lhe diziam que ele falava a verdade e que Caterina mentira.
       - Caterina sabe como o castelo  importante para mim - continuou Lorenzo. - Gino havia contado sobre minha promessa  nossa av. Felizmente, o tabelio de
minha av conseguiu esconder de Caterina o fato de ter omitido o nome dela da cpia assinada do testamento, ento s consta que eu devo me casar, em vez de constar
que devo me casar com Caterina. E se a situao j no fosse por si s complicada, ela tem encorajado um grupo russo a acreditar que vale a pena comprar o Castillo.
Eles pretendem convert-lo num hotel de luxo.
       - Mas por que voc vem aqui  noite?
       - Porque no posso vir de dia, quando Caterina est aqui e porque tenho a necessidade de voltar ao passado, assegurar ao homem que deu a vida para preserv-las
que farei o possvel para realizar seu sonho. - Deu de ombros. - Ao mesmo tempo, tambm tenho um sonho. Gostaria de ver o Castillo virar um centro de reabilitao
para jovens vtimas da guerra - um lugar onde possam se recobrar fsica e emocionalmente. Quero que seja um centro para jovens artistas e artesos bem-dotados que
trabalharo na restaurao necessria e treinaro os jovens aprendizes para seguir seus passos. Quero banir do Castillo e das vidas das vtimas da guerra os lugares
escuros e sombrios e, em seu lugar, ench-los de luz e de alegria de viver. As reunies que venho mantendo em Florena esto relacionadas a meus planos. Assim que
nos casarmos e o castelo for legalmente meu, minha primeira tarefa ser dar incio  restaurao das pinturas.
       Jodie precisou piscar os olhos sem cessar para afugentar as lgrimas tolas e a desconfiana que dera lugar  admirao.
       - Parece maravilhoso, uma empreitada realmente nobre.
       - Caterina no pensa assim. Ela preferia, sem sombra de dvida, que o lugar fosse vendido e ela tivesse direito  minha parte para fazer o que bem entendesse.
Levou meu primo  morte e mesmo que a amasse, jamais a perdoaria por isso.
       Jodie estremeceu.
       - Mas deve t-la amado um dia...
       - Por qu? Por que fiz sexo com ela? - Lorenzo sacudiu a cabea. - Tinha 18 anos e era comandado pelos desejos do meu corpo, s isso. - Como estava sendo
comandado agora, desejando pegar Jodie e lev-la para a cama, para poder terminar o que comeara na noite em que ela devolveu o anel para ele. Desde ento, no passou
uma nica noite sem pensar nisso. Ela o tinha tocado de um jeito que nenhuma mulher tinha conseguido, sua figura invadia-lhe a mente e lhe roubava os pensamentos,
enquanto o corpo pulsava. Zangado, lutou contra o desejo que tomava conta dele.
       Toda noiva fica nervosa - se consolava, enquanto o eficiente estilista, uma costureira e uma ajudante, irromperam em seu quarto.
       Quem poderia imaginar que um casamento discreto envolvesse tantos planejamentos estratgicos? Jodie suspeitava que era o vestido e no ela a causa da insistncia
do estilista em cuidar de todos os detalhes de sua aparncia no dia do casamento - incluindo tratamentos num spa que arranjara para Jodie no dia anterior. Agora,
massageada, depilada e maquilada, Jodie tentava imaginar como se sentiria se tudo fosse, real. Como ficaria diante da perspectiva de fazer os votos a um homem que
amava e fosse correspondida? Mas  claro que isso nunca ia acontecer. Porque  nunca amaria um homem, certo? Certo? repetiu insistente, quando a pergunta encontrou
o silncio como resposta.
       - No, precisa apertar mais - ouviu o estilista instruindo a costureira.
       Mas o ar lhe faltava.
       O cabelo tinha sido arrumado numa mistura artstica de fiapos soltos num coque e coberto com uma rede invisvel com diamantes para completar o bordado de
prolas e diamantes do vestido. Um maquilador tinha passado o que lhe pareceu horas trabalhando no seu rosto, para fazer parecer que ela no usava nenhuma maquilagem,
apenas um brilho suave, e uma sombra dourada-esverdeada nas plpebras que fazia com que os olhos parecessem enormes e refletissem o brilho da esmeralda.
       Quando o estilista ficou satisfeito com a finura da cintura, Jodie teve medo de desmaiar pela impossibilidade de respirar.
       - Venha ver - insistiu o estilista, colocando-a em frente ao espelho de corpo inteiro.
       A imagem refletida no lhe era familiar. Olhos dourados enormes, envoltos por clios negros curvos a olhavam e lbios rosados, mais carnudos que os seus,
separaram-se para mostrar dentes brancos como neve. O corpete do vestido revelava seios fartos e uma cintura finssima, enquanto camadas de anguas cobriam pernas
que pareciam gigantescas, graas ao salto alto.
       - Bene - pronunciou o estilista. - Agora a saia.
       S Deus sabe como poderia ter se vestido sozinha, refletiu Jodie meia hora depois, quando tanto a saia quanto a cauda tinham finalmente sido arrumadas e o
vu e o corpete de renda haviam sido colocados para cobrir-lhe o cabelo e a pele.
       Bateram na porta e ela ouviu uma conversa sussurrada. Em seguida, o estilista lhe entregou as flores e disse apressado:
       - Est na hora...
       CAPTULO ONZE
       Finalmente chegara ao fim: a cerimnia na igreja, os cumprimentos dos convidados, os amigos de Lorenzo, inclusive o advogado e a charmosa esposa e o almoo
que Cario insistira em preparar. Um total de nove horas, durante as quais Jodie no tinha ousado comer ou beber, quanto mais sentar-se.
       Finalmente estavam a ss. Assunta havia preparado uma comida leve antes de ir  igreja assistir ao casamento. Estava to exausta que mal conseguia manter-se
em p. O corpete tinha se transformado num instrumento de tortura, do qual ansiava se livrar.
       No hall do apartamento, dirigiu-se para a escadaria, segurando a saia comprida.
       - Est cansada?
       Mal podia balanar a cabea. Cansao no era o suficiente para descrever tamanha exausto fsica e emocional. Exausto emocional? Por que motivo exatamente?
Sentiu vontade de dar um chute na voz interna indesejvel. Afinal, sabia muito bem como se sentira parada ao lado de Lorenzo, enquanto o padre celebrava o casamento.
A luz das janelas tinha iluminado seu rosto, mas as luzes internas, iluminando a compreenso da verdade que no queria reconhecer, haviam sido bem mais poderosas.
Odiou o sentimento de fraude, de culpa e vergonha com que usavam votos que deveriam ser sagrados para atender aos prprios interesses.
       - Vou subir com voc - ouviu Lorenzo dizer. Como um simples vestido podia pesar tanto? Ao atingir o topo das escadas o corao estava acelerado sentia-se
tonta.
       Do lado de fora do quarto, Lorenzo tocou-lhe o ombro levemente e perguntou frio:
       - Voc tem um minuto...?
       Tinham acabado de se casar e ele perguntava se ela linha um minuto, como se fossem apenas conhecidos. Mas no era isso exatamente o que eram?
       Sabia que ele esperava que ela atravessasse o corredor e o seguisse at o quarto. A perna doa.
       Entrou no quarto dele e ficou o mais prximo possvel da porta, recusando-se a olhar a cama.
       Lorenzo andara at a cmoda onde pegou algo e agora vinha em sua direo.
       - Sabendo como se sente com relao  esmeralda, achei que ia preferir usar esse. Ah, e depois pode ficar com ele, se quiser.
       Em silncio, pegou a pequenina caixa e a abriu. Dentro, um solitrio de diamante. Calada, olhou-o.
       - No poderia ficar com o anel. Deve ter sido muito caro.
       Lorenzo a olhava como se a recusa o desagradasse.
       - Como quiser. No faz diferena.
       - Como nosso casamento - disse Jodie. - Eu realmente preferia no ter a cerimnia religiosa. Me fez sentir... - Calou-se e sacudiu a cabea ao perceber a
impossibilidade de fazer Lorenzo compreender como se sentia.
       Foi acometida de uma tonteira, seguida pela chocante constatao de que estava prestes a desmaiar. Instintivamente, tentou pegar o objeto slido mais prximo,
que por acaso era Lorenzo. Quando balanou em direo a ele, Lorenzo a pegou.
       -  o vestido - conseguiu dizer. - Est muito apertado...
       No minuto seguinte ele a virava, segurando-a com um dos braos enquanto examinava o abotoamento do corpete e perguntava:
       - Por que no disse nada? Como isso sai?
       - A saia e a cauda tm que sair antes do corpete - disse baixinho. - Esto presos nele.
       Antes que pudesse impedi-lo, ele desabotoava a roupa com brutalidade. Quando estavam todos soltos, a cauda e a saia deslizaram at o cho, deixando Jodie
parada com suas meias de seda, salto alto, minsculos shorts masculinos - e o insuportvel corpete apertado.
       - Que deu em voc para usar algo to apertado?
       - No foi minha idia. Foi da estilista - admitiu - Ela insistiu que deviam estar bem apertados.
       - Como  preso?
       -  amarrado por dentro e depois preso com colchetes. - S o esforo de falar a deixava enjoada diante da inabilidade de encher os pulmes de ar.
       - No se mexa - disse Lorenzo, deixando-a no meio do quarto enquanto ia  cmoda e abria uma gaveta. Voltou segurando uma tesoura.
       - No, voc no pode... - Mas era tarde. Ele j cortava o tecido, ignorando-lhe os protestos.
       Quase gritou de alvio quando o corpete caiu.
       - Dio!  um milagre que no tenha ficado sem circulao - disse, em tom de crtica, ao ver as marcas vermelhas onde o corpete tinha lhe cortado a carne. -
Por que no disse antes que a perna estava doendo?
       - Porque no est - mentiu.
       - Est sim. Vou fazer uma massagem.
       - No precisa. Vou ficar bem agora que estou livre do corpete. - Dobrou os braos escondendo os seios, s ento tomando conscincia da nudez, mas ao mudar
o peso de uma perna para a outra uma dor aguda atingiu-lhe a perna e emitiu um gemido.
       Lorenzo murmurou algo que no conseguiu entender e depois pegou-a no colo, ignorando seu dbil protesto enquanto a levava para a cama.
       - Voc  a mulher mais teimosa que j conheci - disse ao coloc-la na cama. - Agora deite-se e eu vou massagear sua perna.
       Ela quis recusar - mais por orgulho do que por qualquer outra coisa - mas a verdade  que a perna doa mesmo e a idia de livrar-se da dor era tentadora demais
para ser recusada.
       Silenciosamente deitou-se fechou os olhos. Tinha esquecido das meias e ficou tensa quando Lorenzo as tirou - to profissionalmente como se ela fosse de plstico
e no uma mulher de carne e osso, reconheceu debochada. Mas sua pele sabia que ele era um homem e a resposta aos movimentos firmes dos dedos massageando-lhe os msculos
doloridos da coxa no; era nada profissional.
       Tinha deitado de bruos para esconder os seios nus e a expresso do rosto - no por vergonha, mas por medo do que poderiam revelar. Agora, ao sentir os mamilos
enrijecendo quando os dedos apertavam a perna dolorida, estava contente pela deciso. A medida que os dedos afastaram a dor, comeou a sentir uma pulsao que se
tornou mais forte at que o desejo espalhava-se por cada nervo. Sentindo-se desconfortvel, afastou-se e tentou sentar-se, com medo que Lorenzo adivinhasse o que
ela experimentava.
       - Qual o problema? Est preocupada achando que posso tentar seduzi-la? - Debochava dela.
       - Claro que no. Por que pensaria isso? Afinal, j sei que voc no me deseja.
       Tinha se virado e estava sentada. Mas no podia sair da cama porque Lorenzo estava de p bem na sua frente.
       - E voc quer que eu a deseje?
       - No.
       - Mentirosa! - acusou-a. Ficou chocada quando ele a colocou de p. - Mas, afinal, mentir  natural para as pessoas de seu sexo...
 verdade, estava mentindo, admitiu. Porque no tinha outra alternativa, outro jeito de se proteger. Por que ele se comportava daquele jeito? Sabia, atravs
do relato de Caterina, que as experincias com a me infiel o fizeram desprezar as mulheres e sentir a necessidade de se proteger, mas no havia motivo para puni-la.
Assim como ela no podia rotular todos homens de traidores e mentirosos por causa de John. Engoliu em seco, incapaz de ignorar sua crtica voz interior.
       - Voc est mentindo. Admita.
       - Admitir o qu? - desafiou-o. - Que eu quero voc? Por qu? O que ganharia com isso? Voc no me quer. Tudo que quer de mim  que eu lhe d motivos para
confirmar que todas as mulheres so iguais  sua me e Caterina. Bem, no so. Voc quer que eu minta porque assim pode continuar a dizer que as mulheres so todas
iguais. Porque tem medo de querer...
       - Chega!
       Jodie tentou protestar, mas no teve tempo. A boca j cobria a sua, as mos machucando-lhe a pele macia dos braos ao pux-la contra o peito com tanta fora
que sentia os botes da camisa pressionando-lhe a pele.
       - No tenho medo de nada - sussurrou Lorenzo contra sua boca. - Muito menos de desejar voc. E para prov-lo...
       Antes que pudesse escapar, beijou-a profundamente enquanto as mos alisaram-lhe o corpo at pegar-lhe os seios.
       Deveria faz-lo parar. Mas o desejo era mais forte que a fora de vontade. O momento de raiva entre eles desencadeara a paixo em Lorenzo que acendeu a sua.
Ele segurou-lhe a cabea, enfiando os dedos em seus cabelos e expondo a vulnerabilidade do pescoo ao sensual ataque de seus lbios.
       Arrepios de prazer sensual e ilcito comearam onde a boca acariciou-lhe a pele e terminaram no corao, levando-a a um lugar onde a realidade no existia
e tudo que importava era deixar-se levar pelo desejo.
       Ele tinha lhe capturado o mamilo entre os dedos da mo livre e brincava com ele, a princpio de leve at que ambos ficaram intumescidos de excitao. A sensao
ertica parecia enviar um milho de choques, aumentando o prazer de tal maneira que se deixou dominar quando ele sugou-lhe o seio, enfraquecendo-lhe no s a fora
de vontade como os ossos focando toda sua concentrao no nos alertas, mas no calor mido entre as pernas que ansiava pelo toque de Lorenzo.
       Tinha verbalizado o que queria? Comunicado a ele, de alguma forma, pensou tonta, quando os dedos: soltaram seus cabelos e a mo acariciou-lhe o corpo, passando
pelos quadris, as mos apertando as curvas das ndegas e puxando-a contra o corpo para que sentisse como ele estava duro e excitado. Beijou-a com intimidade e acariciou-lhe
o estmago. Depois passou os dedos pelo cs da calcinha, provocando-a com um toque audacioso que a fez colar-se ainda mais a ele at que ele correspondeu a seu desejo
e enfiou a mo pela calcinha para apalpar-lhe o sexo.
       Completamente perdida, gemeu de prazer quando ele esfregou-lhe os dedos. A sensao do movimento lento dos dedos ao redor de sua feminilidade era, ao mesmo
tempo, um prazer e um tormento quase insuportveis. Queria que ele continuasse, mas o queria dentro dela, preenchendo-a, satisfazendo-lhe a nsia que a consumia.
Gritou quando ele puxou-lhe devagarzinho o clitris e sua mo buscou-lhe a ereo, visvel atravs das roupas que impediam, de forma frustrante, a total intimidade
do toque.
       - Espere - ouviu-o dizer. Depois, ele a levantou, colocando-a de volta na cama antes de despi-la. Ela ficou deitada nos travesseiros, olhando-o faminta, desavergonhada,
a respirao entrecortada, a mo no prprio sexo, no para proteg-lo, mas para acalm-lo.
       A nudez dele excitou-a. No conseguia tirar os olhos do tamanho do membro que surgia ereto entre os plos. Passou-lhe pela cabea que devia sentir um medo
virginal e no esse delrio de excitao febril. Ele se debruava sobre ela, retirando-lhe as calcinhas, olhando-a enquanto o fazia. Excitao e choque a sufocaram
quando ele enfiou um dedo em sua carne. Gulosa, suspendeu o corpo e o dedo percorreu-a novamente, acariciando-lhe a intumescncia clamando por ateno. Em seguida,
lenta, deliberadamente, enfiou-o. Jodie arfou e gemeu de prazer ao senti-lo abri-la, ainda a acariciando.
       O corpo cobria o seu e ele a beijava. Retribuiu o beijo com furor, parando apenas quando sentiu ter perdido os dedos-fornecedores-de-prazer. Afastou o olhar
e o rosto ficou vermelho quando ele colocou-lhe os dedos nos lbios e disse:
       - Prove seu gosto em mim. - Hesitante, abriu a boca e deixou que ele os colocasse, fechando os olhos e obedecendo ao sussurro: - Chupe meus dedos. - Ela deliciou-se
com o gosto do prprio prazer misturado ao da pele dele e sentiu o poder do afrodisaco que ele lhe oferecia.
       Agora estava completamente perdida, escrava da prpria sexualidade quando as mos e a boca de Lorenzo acariciaram todas as partes de seu corpo: ombros, parte
interna do brao, seios, barriga. Ela se contorcia e gemia, procurava-o com as mos e a boca, saboreando o gosto intenso dele, sentindo o cheiro de macho e mergulhou
no impacto ertico dos prprios sentidos. Curvou-se para passar a ponta da lngua no sexo dele, mas Lorenzo no permitiu. A lngua dele explorava-a, traando um
caminho sensual de frenesi na umidade de seu sexo, esfregando-lhe o clitris, levando-a muito alm da imaginao. Queria tanto ele. Tanto...
       Abruptamente, a realidade interrompeu a excitao e ficou tensa. Empurrou Lorenzo, mas o corpo reclamava por lhe ter sido negado o prazer.
       Lorenzo sentou-se desconcertado e fez meno de torn-la nos braos, mas ela resistiu e sacudiu a cabea, dizendo violentamente:
       - No!
       - O qu? O que est dizendo? Voc me quer... se entregava... - insistiu.
       - Voc quer provar que somos todas mentirosas e infiis como sua me.  verdade, eu quero voc - concordou trmula. - Mas, acima de tudo, exijo respeito.
       Enquanto falava, desvencilhava-se do abrao e saiu da cama, pegando s pressas as roupas espalhadas, consciente de que Lorenzo a olhava, mas sem ousar encar-lo
com receio de no resistir.
       Lorenzo deitou e fixou o teto. O desejo que sentia era apenas fsico, s isso, E o sentimento, apenas raiva por Jodie ter ousado dizer o que dissera. Ela
no significava nada para ele. Nada!
       O vazio que ela deixara na cama era uma bno e no uma lstima. Assim como agradeceria o vazio que deixaria ao sair de sua vida, assegurou a si mesmo.
       O motivo pelo qual ficara to excitado e encantado com sua doura era simplesmente porque h muito no tinha uma mulher na cama. E isso era uma necessidade
que podia satisfazer. Bastava um telefonema. E se no conseguisse falar com nenhuma das vrias mulheres que conhecia e que ficariam satisfeitssimas em receber um
convite - sabia, embora no por experincia prpria, que Florena, como qualquer outra cidade, tinha prostitutas caras, de alta classe, que sabiam como agradar um
homem sem exigir nada alm do pagamento.
       Mas por que pagar uma prostituta quando pensar em uma era o suficiente para esfriar-lhe o desejo sexual? Quando encontrou Caterina pela primeira vez, ela
no fez segredo do fato que tivera vrios amantes ricos, mesmo que depois tenha alegado no ser verdade e que ele tinha entendido mal. E a me dele, os presentes
caros que recebera... um prmio pela infidelidade, mesmo que tivessem sido s de um amante. O corao comeou a bater raivoso.
       Ele se levantou da cama. Cinco minutos depois, debaixo do chuveiro, sentiu o batimento cardaco voltar ao normal.
       O que o deixou furioso foi que Jodie, a quem tinha comeado a considerar sensata e racional, comeasse a fazer acusaes ridculas e infundadas. Como ousara
acus-lo de ser to emocionalmente instvel que queria que ela se deitasse com ele apenas para reforar a crena que o sexo feminino no merecia confiana? Tinha
provado que confiava nela, falado sobre coisas to caras a seu corao que nunca as revelara a mais ningum. Ser que realmente pensava que depois inventaria um
motivo para desconfiar dela? Era absurdo: como se ele fosse uma criana em pnico tentando se proteger por medo de amar.
       Afinal, no tinha medo de se apaixonar por ela nem lutava desesperadamente contra isso, certo? Certo?
       Desligou o chuveiro e pegou uma toalha.
       CAPTULO DOZE
       Estavam casados h quase uma semana e durante esse perodo no mencionaram a noite do casamento. Lorenzo era educado, frio e indiferente quando estavam juntos
e Jodie passava tanto tempo fazendo turismo que  noite caa dormindo exausta.
       Mas agora estavam de volta ao Castillo, a documentao final estava pronta e a propriedade fora transferida para Lorenzo.
       - No esqueci que tenho que cumprir minha parte da barganha. Tomei as medidas necessrias para viajarmos no final da semana para o casamento de seu ex-noivo.
Fiz reserva no hotel Cotswolds, em Lower Slaughter. Conhece?
       - Conheo. - Se era o hotel que imaginava, era exclusivo e caro.
       - Achei que ia querer manter distncia de sua casa.
       - Quero sim - concordou. Certamente no queria que ningum soubesse que ela e o cara com quem acabara de se casar dormiam em quartos separados. Especialmente
quando esfregaria seu estado de recm-casada-feliz no nariz de todos. Soltou um longo suspiro.
       - Estive pensando. No sei se  uma boa idia... seguir em frente com o que tinha planejado.
       - Mas esse foi o motivo de ter concordado em se casar comigo.
       - Eu sei.
       Estavam no hall e Lorenzo fechou a cara ao ver a pilha de malas e caixas jogadas no cho.
       - Discutimos isso depois - disse a Jodie quando a porta interna abriu.
       Caterina apareceu, declarando dramtica:
       - Ento, voltou para cantar vitria e me expulsar? Bem, chegou atrasado. Eu mesma decidi partir. Voc acha que ganhou o jogo, Lorenzo. Na verdade, no ganhou
nada alm dessa runa e uma esposa que no deseja. E tudo isso para qu? Para manter umas pinturas velhas e a promessa feita a uma velha - zombou. - Podamos ter
tanto juntos, mas agora  tarde demais. Ilya vem me buscar daqui a pouco.
       - Ilya?
       - Ele mesmo. Nos conhecemos quando ele mostrou interesse em comprar esse lugar. Tem sido um bom... amigo. E agora... -Fez cara de zangada e em seguida soltou
uma gargalhada.
       - Ele  seu amante?
       - Por que responderia? Mas sim, somos amantes e vamos nos casar assim que o divrcio dele sair. Vai mandar um motorista e algum para pegar minhas coisas.
       Virou-se e olhou para Jodie.
       - Cuidado para que Lorenzo no a use como me usou. E, se o fizer, cuide-se para no engravidar porque ele vai for-la a abortar como fez comigo.
       - Jodie se sentiu desfalecer. Olhou agitada em direo a Lorenzo, esperando que ele negasse as horrveis acusaes de Caterina, mas ele simplesmente girou
nos calcanhares e saiu.
       - No  verdade. No pode ser. Lorenzo jamais...
       - O qu? J est apaixonada por ele? - debochou. - Sua tola. Voc no significa nada para ele e nunca significar. E  verdade. Lorenzo me forou a abortar.
Se no acredita, pergunte a ele. Ele no vai poup-la e mentir. No Lorenzo. Seu orgulho no permitiria. - Comeou a rir e passou por Jodie quando um carro entrou
no ptio.
       Jodie no fazia idia de quanto tempo ficara parada ali, sentada sozinha no jardim, tentando lidar com a turbulncia das emoes.
       No era verdade o que Caterina dissera, dizia a si mesma. No estava apaixonada por Lorenzo. Mas o desejava. Desejo fsico no era amor. Mas era uma manifestao
de amor. No podia amar um homem que no a amava e nem sabia o que era o amor. Mas e se o amasse?
       - Est escurecendo e se ficar do lado de fora muito mais tempo, corre o risco de sentir dor na perna.
       No tinha ouvido Lorenzo chegar e, automaticamente, moveu-se para as sombras pois tinha medo do que ele pudesse ler a expresso de seu rosto. Retesou-se quando
ele se sentou a seu lado.
       - Voc est certo. Melhor entrar - disse sem emoo na voz.
       - Por que no quer ir  Inglaterra?
       - O qu? - Jodie olhou-o sem nada demonstrar. Tinha esquecido a conversa, devido ao nervosismo gerado pelos comentrios de Caterina.
       - Tem que haver uma razo - insistiu Lorenzo.
       - No sei se quero ir - admitiu relutante. - Na ocasio, parecia uma boa idia e ... e chegou a fazer sentido. Mas agora... - Agora seu passado parecia to
distante e ela no se importava com o que John e Louise faziam ou pensavam, porque agora... Porque agora o qu? No queria abrir espao para esse medo que crescia
dentro dela como uma erva daninha. Essa mudana radical se dava por estar se apaixonando por Lorenzo?
       Se apaixonando? Isso significava que estava no meio de um ato que podia ser interrompido, decidiu aliviada, agarrando-se a este pensamento desesperada. E
iria interromp-lo, decidiu.
       - Acho que devamos ir.
       - Voc acha? - Receava que se discutisse os motivos ele podia desconfiar que ela estava se apaixonando por ele. No queria isso de jeito nenhum.
       - Acho. Isso vai ajud-la a colocar um ponto final nessa histria e ento seguir sua vida.
       - Hummmmmm. Acho que est certo.
       - Eu sei que estou - afirmou Lorenzo. - S gostaria...
       - De qu? De ter se casado com Caterina?
       - No - negou enftico.
       - ...  verdade o que ela disse? Sobre o beb? - sussurrou, incapaz de no fazer a pergunta que a consumia desde que Caterina fizera a acusao.
       -  - admitiu Lorenzo. Jodie estremeceu.
       - Seu prprio filho! - protestou enojada. - Como...?
       - No! No era meu filho. Mas isso no diminui minha culpa. No pensei... Esse foi o problema. Eu no pensei; apenas assumi, com a arrogncia e estupidez
tpicas da juventude, que... - Calou-se e Jodie sentiu a tenso vibrar. - Caterina e Gino estavam noivos h uns seis meses quando ela me confessou que estava saindo
com outro cara. Nunca me perdoou por ter terminado nosso breve relacionamento e deve ter pensado que me deixaria com cimes. Me contou que ia ter o filho, mas tinha
dito a Gino que a criana era dele. Fiquei zangado por causa do meu primo. Sabia que ele a amava profundamente. Tentei faz-la mudar de idia. Disse que devia contar
a Gino a verdade ou ento eu mesmo o faria. Queria que Gino soubesse o que ela era e -  verdade! - esperava que ele rompesse o noivado. Para seu prprio bem. Mas
em vez de contar a verdade a Gino, ela interrompeu a gravidez e disse a Gino que tinha perdido o beb. Ele ficou arrasado e props se casarem imediatamente. Ou seja,
graas  minha interferncia, uma vida perdeu-se e outra foi destruda.
       Jodie ficou com pena.
       - No foi sua responsabilidade.
       - Foi sim. Se eu no tivesse interferido, ela teria o beb.
       - E continuaria mentindo para seu primo.
       - Tentei bancar Deus e nenhum homem deve fazer isso. Tentei faz-la mudar o comportamento porque no tinha sido capaz de mudar o de minha me. Ela deixou
a mim e a meu pai para ficar com o amante. Caterina ficou com Gino, mas como minha me, sacrificou o filho para atender a seus propsitos. Foi como se eu tivesse
matado meu prprio irmo.
       Ao ouvir a dor na voz dele, ocorreu-lhe que Caterina devia saber como ele reagiria e que a deciso dela havia sido motivada pelo desejo de infligir-lhe essa
dor e culpa.
       - Nunca vou me perdoar. Nunca!
       - Foi Caterina quem tomou a deciso, no voc - contra-argumentou. - Era o filho dela, o corpo dela. Voc nem era o pai.
       - Se eu fosse o pai, jamais permitiria que ela o tirasse - disse. - Nem que eu tivesse que tranc-la por nove meses. - Ficou quieto por um momento, depois
falou ainda mais baixo: - Uma vez minha me uma vez me disse que eu no fora desejado. Nem mesmo desejara se casar com meu pai. Sofreu uma enorme presso familiar
e decidiu que casando-se escaparia do controle severo dos pais. - A voz de Lorenzo estava glida.
       - Tive tanta sorte em ter pais que se amavam e me amavam - comentou Jodie suave. No podia imaginar como devia ser para uma criana pequena ouvir da me que
no tinha sido desejado.
       - Ela era uma criana quando se casou. Tinha 17 anos e meu pai 24. Ele a amava intensamente. O amante era um piloto de corridas que conheceu atravs de uma
amiga. Muito mais interessante que meu pai. Costumava me levar, quando se encontrava com ele. Eu no fazia idia da verdade. Achava... Ele me mostrou o carro e...
       E voc gostou dele, reconheceu aflita. Voc gostou dele e depois se sentiu como se tivesse trado seu pai - assim como sua me tinha feito.
       - Eles acabaram fugindo e minha me morreu de septicemia na Amrica do Sul, onde ele estava correndo. Meu pai nunca se recuperou da perda e eu jurei que nunca...
       - Confiaria em outra mulher... - concluiu.
       - Deixaria que minhas emoes me controlassem - corrigiu-a.
       - Ns realmente precisamos continuar casados por um ano? - perguntou. - Afinal, voc j conseguiu o Castillo, Caterina foi embora...
       - Nosso acordo foi ficarmos casados por um ano - lembrou-a. - Qualquer mudana daria margem a fofocas e especulaes e embora Caterina tenha partido, pode
contestar o testamento se achar que pode ganhar o processo. No quero isso.
       - Doze meses parece tanto tempo.
       - No mais do que quando voc concordou em ficar comigo por esse perodo.
       Mas ento ela no sabia o que sabia agora. No sabia que corria o risco de se apaixonar por ele, que cada dia ao lado dele, o perigo aumentava. Mas no podia
contar-lhe isso.
       - O que vai acontecer com o Castillo agora? - perguntou, sabendo que no havia nada que pudesse explicar sua relutncia em continuar com ele, sem desvendar
seus sentimentos.
       - Estou providenciando para que vrios especialistas venham aqui e inspecionem as pinturas para discutirmos a melhor maneira de restaur-las. Tambm pretendo
dar incio a obras para converter o Castillo num centro de reabilitao e artstico. J falei com vrios restauradores de Florena e outros artesos, mas nada disso
lhe interessa.
       Jodie curvou a cabea para que ele no visse como as palavras de descaso a magoaram. Mas  claro que ele no a via como parte do futuro que planejava. Por
que o faria?
       Qual seu problema? O fato de sentir uma proximidade com Jodie que nunca experimentara com mais ningum no significava nada. E certamente no significava
que estava se apaixonando. Podia perceber que ficava tenso, como se tentasse bloquear os pensamentos e sentimentos; no apenas bloque-los, mas extingui-los por
completo.
       Porque tinha medo de deix-los existir? Durante sculos, por ignorncia e preconceito, os homens buscaram controlar o que temiam destruindo-o. Estava fazendo
o mesmo? Se sentia tanto medo do efeito que exercia sobre ele, ento por que no aproveitava a chance de se ver livre dela? Porque no estava com medo nenhum. Por
que teria? O que havia para temer? Jodie no significava nada para ele, e quando chegasse a hora de seguirem caminhos separados, seria capaz de faz-lo sem o menor
escrpulo ou arrependimento.
       CAPTULO TREZE
       O vo de Florena num jato executivo, seguido de um de helicptero do aeroporto de Heathrow at o hotel, tinha sido realizado com tamanha rapidez e luxo que
Jodie se sentia protagonista de um filme. Foram conduzidos do helicptero para a sute com tamanha reverncia que ela se divertiu e achou que Lorenzo parecia mais
arrogante do que nunca.
       O deslumbrante hotel Cotswolds, do sculo XVII, era, originalmente, uma residncia. Agora, de propriedade de um consrcio de empresrios ricos que o compraram
e remodelaram como se fosse um clube campestre para membros exclusivos, era voltado para os ricos e exigentes e o local favorito de festas dos famosos. O restaurante,
com estrelas do Michelin, era fabuloso e seletivo quanto  clientela e o spa, o local favorito das celebridades. Diziam que um grupo de freqentadores muito ricos
instalara, nas dependncias do hotel, um clube de jogo, no qual fortunas eram perdidas e ganhas.
       Do hall de entrada, com antiguidades e aparncia de casa de campo,  decorao da sute com vasos enfeitados com as mesmas flores do casamento s ltimas
edies de revistas de negcios italianas, respirava-se exclusividade e ateno aos mnimos detalhes.
       Definitivamente era um outro mundo, pensou, quando o mordomo exclusivo assegurou-lhe que suas roupas seriam retiradas das malas e estariam passadas em uma
hora.
       - Providenciei um carro para que possa me familiarizar com o percurso at o local do casamento - comentou Lorenzo.
       - Os pais de John oferecem um open house hoje  noite. A cidade inteira foi convidada.
       - Ns vamos?
       Ela queria ir? De alguma forma o calor que tinha chamuscado seu orgulho e a feito desejar mostrar-se superior queles que a conheciam, exibindo um novo homem,
tinha esfriado e se transformado em indiferena e ela se perguntava por que cargas d'gua estava ali.
       John e Louise, a dor que lhe causaram, tinham perdido o poder sobre suas emoes. A vida que conhecera e vivera antes de encontrar Lorenzo parecia to distante...
J estava fazendo novos amigos em Florena, desenvolvendo novos interesses, tinha uma viso mais abrangente da vida. No podia se imaginar voltando para sua cidade
de origem ao final do casamento com Lorenzo. Mas o que faria? Permaneceria em Florena? No, isso seria muito penoso.
       Penoso? Por qu? Mas  claro que conhecia a resposta para essa pergunta. J tinha suspeitas na noite em que ele contou a histria sobre as pinturas escondidas
do Castillo. E teve a certeza na noite em que se sentaram no jardim e ouviu-o contar sobre a infncia, sobre seus sentimentos.
       - No tenho mais certeza se essa  uma boa idia - disse a Lorenzo, sentindo-se pouco  vontade.
       - Por que no? Porque est com medo do que pode descobrir sobre os prprios sentimentos?
       - No! No h nada a descobrir. J sei como me sinto. - Como isso era verdadeiro!
       Ainda amava aquele homem idiota e cego que tinha sido estpido a ponto de ter preferido outra mulher, pensou Lorenzo zangado.
       - Est com medo de ficar to emocionada ao ver seu ex-noivo que no conseguir se controlar e vai correr e implorar-lhe que a aceite de volta? - sugeriu de
forma cruel.
       - Isso  ridculo - objetou. - Alm do mais, sou uma mulher casada.
       - E  ingnua o suficiente paia acreditar que sua aliana de casamento formar uma barreira contra suas emoes?
       - No preciso disso. No sinto mais nada por John. Ele no significa nada para mim.  por isso que no quero ir.
       A voz demonstrava convico e Lorenzo sentiu o corao bater com fora, exigindo que fizesse a pergunta cuja resposta queria, to desesperadamente, conhecer.
Ignorando a reivindicao, ele puxou a manga do palet, sem permitir que ela respondesse e disse seco:
       - Est quase na hora do almoo. Sugiro comermos algo e depois pegamos o carro para que eu possa me familiarizar com a estrada.
       A regio de Cotswolds estava banhada pelo sol quente do vero, suas vilas cheias de nibus de turistas. E, como fazia todo vero, Jodie se perguntou o que
os pastores de ovelhas que, no passado, levavam seus animais ao mercado atravs dessas estradas tradicionais, pensariam se pudessem ser transportados aos tempos
modernos.
       A pequena cidade de Lower Uffington, onde Jodie tinha crescido, ficava ligeiramente fora da rota normal de turismo, felizmente, e sentiu os msculos de estmago
comearem a se contrair de nervoso, quando se sentou no banco do carona do Bentley alugado. Lorenzo percorria as vielas estreitas quando num declive Jodie deparou-se
com as paredes de pedra familiares e passaram a placa que delimitava o incio da cidade.
       A frente deles estava a bonita praa da cidade, com as tradicionais casas de comrcio de l alinhadas ao longo das ruas estreitas, alm das quais a estrada
comeava a subir em direo s plancies de Cotswolds onde as ovelhas ainda pastavam, como costumava fazer a tantos sculos. O mercado de l tinha trazido prosperidade
 cidade e essa prosperidade ainda era evidente nas construes.
       Seu pequeno chal no era visvel. Ficava localizado numa viela estreita, o jardim  beira do pequeno rio que corria atrs da rua principal. Um golpe de dor
e nostalgia atingiu-a, mas no foi to forte quando temera. Conscientizou-se de que qualquer lugar podia ser seu lar, se partilhado com a pessoa que amasse.
       Uma pequena placa indicava uma passagem entre duas casas que conduziam ao ptio pertencente ao prdio do escritrio do pai de John e Jodie exalou um profundo
suspiro quando viu o carro de John estacionado na estrada perto.
       - O que foi? - perguntou Lorenzo.
       - Nada.
       E era verdade. A viso do carro de John, que logo aps o trmino da relao a teria enchido de tristeza, agora no tinha o menor efeito sobre ela - alm de
um vago sentimento de alvio depois que ele foi deixado para trs. No gostaria que John aparecesse e a visse.
       No final da cidade, cercada de verde, estava a igreja, pequena e baixa, suas janelas e vitrais iluminados pela luz do sol. Os preparativos j estavam sendo
feitos para o casamento de amanh, percebeu Jodie ao ver braadas de flores brancas amarradas com fita branca ornamentando o porto em estilo antigo.
       A famlia de John, assim como a dela, vivia ali h muitas geraes. Os pais de John eram relativamente influentes e a fazenda em que moravam, com seus grandes
jardins, ficava ligeiramente afastada da cidade.
       - Podemos parar? - perguntou.
       - Se quiser. - Ele entrou no pequeno estacionamento e parou o carro.
       Havia uma coisa que queria fazer, reconheceu Jodie. Uma visita pessoal que tinha necessidade de fazer.
       - No precisa vir comigo - disse a Lorenzo ao abrir a porta do carro. - No vou me demorar.
       - Tambm vou saltar. Preciso esticar as pernas - respondeu Lorenzo.
       Ela pode v-lo franzir a testa quando se dirigiu  igreja. E a testa franziu ainda mais quando, no lugar de entrar pela porta principal, com sua decorao
floral, ela preferiu desviar-se e abrir um porto bem menor que levava atravs de um verde imaculado e depois, atrs da igreja, ao cemitrio.
       O lugar parecia vazio, mas mesmo se no estivesse e ela encontrasse algum conhecido, no se deteria. Ela soube quando estava na igreja em Florena, fazendo
os votos de fidelidade a Lorenzo, que isso era algo que queria fazer.
       Pegou o caminho estreito familiar que passava por entre os grandes mausolus e lpides cobertos de hera, to antigos que as letras estavam quase apagadas,
e caminhou mais adiante pelo cemitrio at chegar ao lugar que queria.
       Ali, sentou-se na grama debaixo num tmulo coberto de plantas, no qual uma pequena placa mostrava dois nomes.
       - Meus pais - disse simplesmente. Lgrimas encheram-lhe os olhos e a mo tremeu ligeiramente quando pegou, com cuidado, na bolsa uma caixinha na qual guardara
as ptalas de seu buqu de casamento. Tirando-as, espalhou-as no tmulo dos pais.
       Quando virou-se para olhar Lorenzo sentiu um n na garganta. A cabea de Lorenzo estava reclinada e ele rezava.
       - E tolo, eu sei, mas eu queria que eles soubessem... - Ela parou e mordeu o lbio.
       - Quer entrar na igreja? - perguntou Lorenzo.
       Jodie sacudiu a cabea.
       - No. Eles a esto arrumando para o casamento e no quero...
       - No quer o qu? Dar de cara com a amiga que lhe roubou o noivo? Achei que esse era o motivo de estarmos aqui.
       - John  um adulto. Ningum o forou a terminar o noivado comigo por causa de Louise. - A cabea comeou a doer. - Podemos voltar para o carro?
       Lorenzo deu de ombros.
       - Se  isso que quer...
       O que queria  que Lorenzo a amasse como ela descobrira que o amava. O que queria era voltar para Florena com ele, passar a vida com ele, construir um futuro
com ele.
       - Estou ficando com dor de cabea - foi o que respondeu.
       - Deve ser da ansiedade. O que exatamente est querendo hoje  noite, Jodie?
       Voc. Estou querendo que olhe para mim e me ame.
       - Nada. No estou querendo nada.
       - No? No quer, no ntimo, que John a veja e reconhea que  voc que ele quer?
       - Isso no vai acontecer.
       - Mas voc quer?
       - No.
       Tinham voltado ao carro e estava to absorta em rejeitar as insinuaes de Lorenzo que no percebeu a mulher que olhava fixamente para ela at que uma voz
familiar disse surpresa:
       - Jodie! Meu Deus! Pensei que ainda estivesse viajando.
       Lucy Hartley - cujo marido trabalhava para o pai... de John.
       De um jeito ou de outro, Jodie conseguiu forar um sorriso.
       -  s uma visita relmpago - explicou. - Queria mostrar a meu... meu marido...
       - Seu marido? Voc se casou?
       Para alvio de Jodie, Lorenzo deu um passo  frente e estendeu a mo. Rapidamente fez as apresentaes, vendo os olhos de Lucy ficarem arregalados.
       - Voc vai  festa oferecida pelos pais de John hoje  noite? - perguntou.
       - Certamente - respondeu Lorenzo educadamente, antes que ela pudesse falar. - Se no for incomodar... Jodie me falou tanto da casa dela e dos amigos que estou
ansioso por conhec-los.
       - Claro. Tenho certeza de que Sheila e Bill ficaro absolutamente satisfeitos. - Lucy transbordava de alegria. - Vou dizer a eles que encontrei vocs. Aonde
esto hospedados, caso algum pergunte?
       Relutante, Jodie respondeu e viu os olhos se arregalarem um pouco mais ao reconhecer o nome do hotel exclusivo.
       - Uau! Voc subiu na vida, Jodie!
       Jodie sentiu o rosto ficar vermelho.
       - Precisamos ir, mas voltaremos a nos ver  noite - disse Lorenzo gentil, rapidamente afastando-a antes que ela pudesse demonstrar o que sentia.
       - Essa mulher  to esnobe! - queixou-se zangada, enquanto Lorenzo destrancava o carro e abria a porta para ela. - No momento em que mencionei o hotel ela
estava grudando em ns como um carrapato. E isso porque ainda no sabe sobre seu ttulo.
       Lorenzo fechou a porta e deu a volta para entrar no carro.
       Assim que ligou o motor, falou decidida:
       - Lorenzo, no quero ir. Quando disse que queria, no estava raciocinando direito. No acho que devamos ir.
       - Agora no podemos deixar de ir - comentou calmo. - Estaremos sendo aguardados.
       Sabia que devia ficar agradecida a Lorenzo. Ele tinha reorganizado a agenda para acompanh-la e ali estava ela, dizendo a ele que no queria estar ali.
       Lorenzo olhou para o perfil da jovem. Ele podia imaginar o efeito que encontrar o ex-noivo e a futura esposa lhe causava e o quanto isso a aborrecia. Ento
por que insistia em for-la? O que estava tentando provar que valesse a pena provar? Por que no pisava fundo no acelerador, ia para o hotel e a levava de volta
 Itlia antes que ela mudasse de idia? Uma vez l, ele teria quase um ano inteiro...
       Um ano inteiro para qu? Para persuadi-la a continuar casada com ele? Isso era o que queria, no era?
       E se fosse? No queria dizer nada - a no ser que comeava a achar que seria mais fcil continuar casado com ela do que se separar. O casamento dava  vida
de um homem um certo objetivo e estabilidade. S porque antes no tinha considerado a importncia de um casamento arranjado  moda antiga, isso no significava que
era to inflexvel que no pudesse reconhecer isso agora. Afinal, ele e Jodie estavam casados. Havia muito a ser discutido, do ponto de vista prtico, para que permanecessem
casados.
       Ele ainda seria capaz de manter as barreiras emocionais. Uma vez que estivesse seguro de que ela aceitava que aquele ex-noivo dela no estava mais disponvel
e fazia parte de seu passado, ele se sentia confiante de poderem desenvolver um relacionamento que funcionasse.
       E um relacionamento sexual? O corpo retesou-se traindo-o.
       Jodie, por sua vez, teria a proteo de um marido e uma vida de conforto. Podiam at ter filhos, se ela assim o desejasse. Ele franziu a testa quando esse
pensamento magnnimo provocou uma reao em seu corpo, emoes que iam bem mais alm do que qualquer simples sentido de reconhecimento da prpria generosidade. Nunca
tinha considerado antes a produo de crianas como parte essencial de seu plano de vida - tinha parentes masculinos em quantidade suficiente para produzir o prximo
duque. Entretanto, tinha que considerar o futuro do Castillo e faz sentido ter os prprios herdeiros para deixar o Castillo. E Jodie no ia querer deixar os filhos.
       Ele freou bruscamente para evitar atingir um ciclista, negando mentalmente que essas concluses no eram produto da emoo, mas sim baseadas na lgica.
       Ao chegar ao hotel, decidiu que no tomaria nenhuma deciso at hoje  noite, aps ter analisado como Jodie reagia ao encontrar o ex-noivo. Se depois disso,
e depois de pensamentos mais aprofundados estivesse convencido de que o casamento tinha futuro, ao voltarem  Itlia ele lhe diria isso.
       Ela realmente queria nunca ter dito que queria fazer isso. Jodie estudava seu reflexo no espelho do quarto e passou a mo nervosa por cima de suas calas
de crepe cor de creme, maravilhosamente bem-cortadas.
       - Pronta?
       Desanimada, sacudiu a cabea quando Lorenzo entrou em seu quarto. Ele parecia exatamente o que era: um homem alto, moreno, incrivelmente elegante e ainda
mais incrivelmente arrogante, extremamente masculino - o tipo de homem por quem qualquer mulher se sentiria atrada. O tipo de homem que qualquer mulher sabia que
corria o risco de se tomar emocionalmente vulnervel se no tomasse cuidado. Que pena que ela no tinha sido adulta o suficiente para reconhecer isso logo no incio...
       Ela percebeu o jeito que ele a olhava, mas se estivesse esperando por um elogio  quanto  aparncia ia ficar desapontada, percebeu logo.
       Quando deu os primeiros passos em direo  porta, ele a segurou. Por um segundo a cabea foi tomada por imagens impossveis e ainda mais implausveis cenrios:
Lorenzo a tomando nos braos e recusando-se a deix-la ir; Lorenzo insistindo que a queria manter ali naquele quarto e fazer amor com ela; Lorenzo dizendo apaixonadamente
que a amava. Recusou-se a admitir o quanto queria que isso acontecesse de verdade, e tentou concentrar-se no que Lorenzo dizia.
       - Acho que devia usar isso hoje  noite.
       Ela olhou o anel de esmeralda.
       - Afinal,  nossa aliana de noivado - comentou - e o smbolo de nosso relacionamento.
       Sem uma palavra, estendeu a mo para pegar a aliana, mas ele sacudiu a cabea devagar, pegou-lhe a mo e colocou ele mesmo o anel em seu dedo.
       Lgrimas escorreram de seus olhos. Lgrimas tolas que provaram para si mesma como tinha avaliado erroneamente a prpria vulnerabilidade. S uma mulher profundamente
apaixonada podia se sentir daquele jeito.
       No demoraram muito para chegar  casa dos pais de John. Um grande toldo tinha sido colocado no jardim e no terreno adjacente  casa, havia vrias fileiras
de carros estacionados.
       Foram cumprimentados no porto por um primo mais jovem de John, de smoking, que mostrou-se surpreso ao reconhecer Jodie, o que o deixou encabulado.
       - Acho que devemos tentar encontrar os pais de John primeiro - disse Jodie.
       - Isso me parece uma boa idia - concordou Lorenzo.
       - O que voc trouxe? - perguntou curiosa, ao ver que ele carregava uma caixa de presente pequena.
       - Chocolates caseiros para nossa anfitri - informou, acrescentando: - Mandarei entregar uma dzia de garrafas de vinho para o anfitrio.
       Jodie deu um olhar de reprovao e pegou a bolsa, de onde tirou uma caixa embrulhada exatamente igual.
       - Bingo! - disse a ele rindo, sorrindo de maneira natural pela primeira vez desde que tinham chegado  Inglaterra.
       - Jodie! Lucy contou que tinha visto voc  tarde na cidade.
       O sorriso de Jodie desapareceu ao ver a me de John parada na frente dos dois.
       Instintivamente, aproximou-se de Lorenzo. Ao perceber o olhar com que a me de John os examinava, ergueu a cabea e encarou-a.
       - Espero que no estejamos aqui de penetras - disse calmamente. - Posso apresentar meu marido a voc, Sheila?
       - Seu marido? Lucy me contou, mas eu no... Meu Deus, que surpresa. - A me de John deu um sorrisinho histrico. - E ns aqui, preocupados, achando que voc
estava triste e com o corao partido.
       - Minha mulher no demorou a perceber que tivera um namorico sem importncia ao encontrar amor verdadeiro. - O sorriso de Lorenzo podia ter diludo um pouco
do veneno de suas palavras, mas mesmo assim, Jodie olhou-o com reprovao e no ficou surpresa ao verificar a frieza de seus olhos.
       - Bem, espero que vocs sejam muito felizes, senhor... - comeou Sheila num tom de voz que demonstrava falsidade.
       - Lorenzo Niccolo d'Este, Duque de Montesavro - apresentou-se Lorenzo com uma segurana fria indiferente.
       - O senhor  duque? - perguntou Sheila, perdendo a voz.
       Lorenzo inclinou a cabea concordando e disse calmamente:
       - Mas me chame de Lorenzo.
       De repente Jodie comeava a achar a situao muito divertida.
       - E como est o vereador Higgings? - perguntou meiga, voltando-se para explicar a Lorenzo: - O pai de John  vereador municipal.
       A me de John tinha, ela notou, comeado a ficar numa tonalidade rosa que em nada lhe favorecia. Engraado como comeou a se lembrar de todas as ocasies
nas quais os pais de John tinham deixado claro que a consideravam inferior a eles.
       E claro que estava se comportando muito mal, sabia, mas algumas vezes se comportar mal pode ser divertido!
       - Essa  uma das vantagens de ter me casado com voc e no com John - murmurou para Lorenzo quando se afastaram para que Sheila cumprimentasse os convidados
que chegavam.
       - Qual?
       - No ter sogra - disse sucinta.
       A essa altura tinham comeado a atrair bastante a ateno e as pessoas ao reconhec-la disfaravam, mas acabavam por se desviar para olhar mais de perto e
com curiosidade.
       Lorenzo tinha segurado seu brao de maneira solcita - provavelmente com medo que ela tropeasse nos saltos altos e terminasse caindo de cara no cho envergonhando
a ambos, refletiu, equilibrando-se no piso desigual.
       - Jodie...
       Ela virou-se com um sorriso sincero ao ouvir a voz do mdico local que demonstrava carinho e satisfao
       - Dr. Philips!
       Ele lhe deu um abrao entusiasmado e depois sorriu para ela.
       - Voc est tima!
       - Comida italiana, sol italiano...
       - E um marido italiano - cortou Lorenzo, fazendo o mdico rir.
       - No devia dizer isso - sussurrou o mdico com uma careta - mas sempre achei um desperdcio voc ficar com John. Um cara legal, mas meio sem personalidade
- e muito controlado pela me.
       - Pobre John. O senhor no est sendo muito gentil - protestou Jodie, mas acabou rindo.
       Lorenzo pegou duas taas de vinho servidas por um garom e entregou uma a Jodie.
       Ela ainda no tinha visto nem Louise nem John, embora tivesse achado ter visto os pais de Louise. Sempre gostara da me de Louise, mas no tinha vontade de
encontr-la agora. Naturalmente, como me, ia apoiar a filha - no importa o que esta pudesse ter feito.
       E alm disso, era forada a admitir que se Louise e John se amavam, era mais do que certo ficarem juntos. Ela no mais se importava com o que lhe tinham feito
porque sua prpria vida e seus prprios sentimentos tinham mudado. Olhou para Lorenzo e se permitiu mergulhar numa fantasia na qual sugeria a ele que fossem embora
e voltassem para o hotel. Ele concordaria com entusiasmo e daria um sorriso satisfeito antecipando os prazeres sensuais que os aguardavam. Ela exalou um suspiro
quando abandonou esse improvvel, mas delicioso sonho e voltou  realidade.
       - Sua perna? - perguntou Lorenzo imediatamente, interpretando erroneamente o motivo do suspiro.
       Ela devia mentir e fingir que a perna a incomodava para que pudessem ir embora?
       Mas antes que pudesse dizer alguma coisa o pastor e a esposa se aproximaram e Lorenzo envolveu-se numa discusso com eles sobre Florena.
       Tomou um gole de vinho e procurava onde colocar a taa quando ouviu Louise dizer num tom de voz irritado:
       - Quero dar uma palavrinha com voc!
       Louise estava sozinha e no havia sinal de John,
       - No pense que no percebi o que est planejando e o motivo de estar aqui - sussurrou a ex-amiga zangada.
       Jodie sentiu o rosto comear a queimar. Sentia-se culpada pois sabia do motivo original que a levara ali. Mas, talvez, houvesse uma chance de perdoar - de
acabar com a inimizade entre elas...
       - Isso  a vida real, Jodie, no uma novela romntica - dizia Louise. - John no vai dar uma olhada em voc, me atirar de lado e voltar correndo atirando-se
a seus ps.
       - timo. Porque, honestamente, no  o que quero - disse. - Louise, estou casada e eu...
       - Casada? Voc? - Louise a olhou com enorme desprezo, - Voc pode enganar todo mundo, mas no acredito nessa histria nem por um segundo. Acho que voc no
se casou - com certeza no tem a aparncia de casada - e acho que voc contratou esse cara para se fazer passar por seu "marido". - Olhou zangada para Jodie. - Nenhum
homem bonito como ele ia querer voc com essa perna. Todo mundo est rindo de voc. Voc sabe disso, no sabe? Fingir que se casou com um duque. Como se isso fosse
possvel! E esse anel ridculo que est usando? acrescentou, retorcendo a boca. -  to evidente que  falso - assim como voc e seu casamento. Aposto que voc ainda
continua sendo aquela virgenzinha pattica que era quando John lhe deu o fora.
       Agindo por instinto, desviou o olhar para Lorenzo, um pedido silencioso nos olhos. Ele retribuiu-lhe olhar.
       E em seguida caminhou na direo delas, respondendo  mensagem cifrada que lhe enviara. Foi tomada pelo alvio. Era tudo que precisava para no se atirar
em seus braos e implorar-lhe que a levasse embora.
       Lorenzo sentiu a dor de Jodie como se fosse sua. Uma fria e o desejo instintivo de proteg-la ferviam dentro dele. Tinha ouvido o que Louise dissera e no
tinha precisado do pedido silencioso que Jodie lhe enviara, suplicando por sua ajuda, para ir a seu encontro. Queria arranc-la daquele lugar, afast-la dessas pessoas
que no a apreciavam, do homem que no a tinha amado como merecia ser amada... como ele, em sua estupidez, tinha tentado se recusar a am-la. Mas agora que o amor
tomara conta dele e afastado todo o resto, todas as outras pessoas, nada, a no ser Jodie e sua felicidade importavam.
       Ele aproximou-se e segurou-lhe a mo, vendo quando o alvio brilhou em seus olhos.
       - Para sua informao - disse a Louise frio no fui contratado. Jodie e eu estamos casados e venero a beleza de seu corpo quase tanto quanto amo a doura
de sua natureza. E quanto  autenticidade tanto de meu ttulo quanto do anel de noivado de famlia... - O olhar que lanou a Louise era to devastador que Jodie
ficou surpresa que no a tivesse reduzido a cinzas no ato.
       - Uma vez que voc est noiva de um homem que, obviamente, no pode discernir o que  genuno do que no , imagino que seja de se esperar que voc emita
opinies ignorantes e mal informadas - continuou no mesmo tom. - E quanto ao motivo de estarmos aqui... - Lorenzo agora aumentou a voz ligeiramente, quando uma multido
curiosa formou-se  volta. - Foi minha deciso. Quis ver onde Jodie tinha crescido, encontrar as pessoas com as quais convivera. E confesso que tambm queria conhecer
o homem que foi idiota o suficiente para deix-la. Jodie s queria desejar felicidades aos dois.
       Lorenzo ainda segurava-lhe a mo, percebeu, e a apertou com ainda mais firmeza enquanto movia-se protetor para perto dela. Automaticamente recostou-se nele,
grata pela sensao do corpo dele absorvendo o mal-estar e o choque do seu corpo.
       - Que criatura pattica voc ! - disse Lorenzo a Louise numa voz bem baixa, inaudvel para a maior parte das pessoas. - Voc rouba o noivo da amiga e depois,
por causa de sua fraqueza e superficialidade  obrigada a viver com medo de perd-lo para ela.
       Louise, de vermelha ficou branca, quando as palavras cortantes de Lorenzo atingiram-na e de repente a mulher que Jodie sempre tinha achado uma beleza parecia
feia.
       John tinha vindo correndo para o lado de Louise e olhava para as duas sem saber o que fazer. Quando a fitou, ficou evidente para Jodie que ele no era nada
se comparado a Lorenzo, que no passava de um homem fraco. Se j no tivesse percebido que no amava, certamente o faria agora.
       - Podemos ir? - perguntou Lorenzo a Jodie.
       Ela simplesmente fez um sinal com a cabea.
       CAPTULO QUATORZE
       Dirigiram at o hotel em silncio e Jodie ficou grata a Lorenzo por no dizer nada. Agora que estavam de volta  sute ela se deu conta de como estava chocada
e angustiada devido ao maldoso ataque de Louise.
       Tudo que desejava era a privacidade de seu quarto, para que pudesse colocar para fora as lgrimas. Para seu alvio, Lorenzo no fez nenhum comentrio quando
ela disse:
       - Minha cabea est doendo. Eu... eu acho que vou dormir cedo.
       Despiu-se, tomou um banho, enxugando-se rapidamente antes de enfiar-se nos lenis cheirosos, pensando que, por sorte, Louise no sabia que ela e Lorenzo
dormiam em quartos separados.
       Ficou nervosa ao ouvir uma batida na porta do quarto e a voz de Lorenzo dizendo:
       - Pedi um jantar para voc. Vou lev-lo.
       Era tarde demais para dizer que no queria. Ele j abria a porta e empurrava um carrinho pelo quarto.
       -  s uma salada e um bule de ch. Me lembrei que voc disse que gostava de tomar ch quando estava com dor de cabea. Ou a dor  no corao? - perguntou
seco.
       Jodie mordeu o lbio e tentou sentar-se, ao mesmo tempo em que segurava a coberta da cama. Dando um suspiro profundo, disse com a voz embargada:
       - Lorenzo, ainda no lhe agradeci por... por me defender e dizer o que disse a Louise.
       - Voc  minha esposa. Quando se trata de duvidar da validade de nosso casamento, naturalmente voc conta com meu apoio. E naturalmente, no podia permitir
que aquela mulher tola fizesse aquelas ridculas acusaes sem dizer nada.
       Balanou a cabea.
       - Ns dois sabemos que no foi sua idia virmos aqui.
       - No, foi sua, porque voc queria encontrar seu ex-noivo. Voc est melhor sem ele, sabe disso - disse friamente. -A impresso que tive dele, depois de conversar
com algumas pessoas,  que ele  um jovem fraco e superficial, dominado pela me.
       - A famlia de Louise tem dinheiro e, suponho que, alm das preocupaes de Sheila sobre minha sade, ela deve ter achado que Louise seria um melhor partido
para John. No que eu o queira; ele no significa mais nada para mim. Posso v-lo como ele  e acho que dei sorte por no ter me casado com ele.
       Lorenzo franziu a testa.
       - Voc fala de um jeito como se realmente pensasse assim.
       - E penso. Deixei de am-lo antes de deixar a Inglaterra. Voltar apenas confirmou o que eu j sabia. - E de diversas maneiras, admitia, mas obviamente no
podia dizer a Lorenzo que voltar e encontrar John tinha lhe mostrado como era forte o amor que sentia por ele, se comparado aos sentimentos que no passado achava
sentir por John. Ainda tinha orgulho e esse orgulho estava ferido por causa das palavras de Louise.
       Ela mordeu o lbio inferior e disse tristonha:
       - Eu devia ter imaginado que as pessoas achariam que nosso casamento no era de verdade e que voc no me quer. - Ela riu um pouco exageradamente. - Suponho
que devo trazer escrito na testa "virgem rejeitada", por causa da minha perna e...
       - Que absurdo  esse? - perguntou Lorenzo, descansando a xcara de ch que preparava para ela e parando ao lado da cama.
       - No  absurdo - insistiu arrasada. - John me rejeitou por causa da minha perna e por causa dela ainda sou virgem. Odeio saber que as pessoas tm pena de
mim e... e ficam me olham por causa da minha perna - disse num mpeto. - E eu s queria que...
       - Qu?
       - Que quando Louise me olhasse visse uma mulher de verdade.
       Lorenzo sentou-se na cama, perto dela.
       - Se  isso que realmente quer, pode ser conseguido facilmente - disse com voz rouca. - Porque definitivamente no compartilho da opinio do seu ex-noivo
idiota e a desejo muito.
       Engoliu em seco e perguntou num sussurro, insegura:
       - Voc... voc... me deseja?
       - Claro. E mais do que isso, desejo prov-lo a voc. Temos essa noite - disse Lorenzo. - E se voc quiser, amanh voc pode testemunhar o desprezvel casamento
deles com todo o brilho de uma mulher cuja curiosidade sexual foi satisfeita - e cuja fome sexual foi saciada.
       Lorenzo estava propondo fazer amor com ela? Um pouco apreensiva, molhou os lbios com a ponta da lngua.
       - Mas... mas antes voc disse que no podamos porque...
       - A gerncia do hotel pensa em tudo...
       Quando pareceu intrigada, ele explicou:
       - Tem um pacote de camisinhas com os outros produtos de toalete que trouxeram.
       - Ah, entendi.
       - A deciso  sua - disse Lorenzo.
       A vontade da fazer sexo com ela no significava nada srio, Jodie sabia. Era sexo que lhe oferecia, s isso. No o amor pelo qual ansiava, e certamente no
o futuro e a permanncia. Mas, ainda assim, queria o que ele lhe oferecia.
       Engoliu em seco e olhou para ele.
       - Ento decido dizer que sim.
       Quando ele se levantou da cama e se afastou, ela imaginou um milho de coisas terrveis, sentiu-se a mais infeliz das mulheres, mil vezes pior do que se sentira
quando John havia se afastado dela. Mas, depois, viu que em vez de dirigir-se para a porta, Lorenzo tinha parado ao lado do carrinho. Pegou uma garrafa de champanhe
do balde de gelo e a abriu para encher duas taas.
       Voltou para a cama com elas e ofereceu-lhe uma.
       - A hoje e ao que vai nos trazer. Que possa ser tudo o que voc espera - desejou encostando a taa  sua.
       Apreensiva, tomou um gole do champanhe borbulhante e estremeceu quando Lorenzo tirou-lhe a taa da mo e a beijou.
       A boca tinha o gosto de champanhe e dele, e ela se agarrou a esse pensamento enquanto a ponta da lngua acariciava seus lbios e depois os entreabriu.
       Ele a beijou at que no conseguiu pensar em mais nada, a no ser no prazer, na intimidade e no prprio desejo que pedia mais; at que ela aproximou-se ainda
mais dele e passou-lhe os braos pelo pescoo, enquanto os lbios se abriam famintos; at estarem deitados na cama. As mos acariciavam seu corpo nu enquanto removiam
as barreiras indesejadas que os separavam.
       Os corpos nus colados, pele contra pele, ela e o homem que amava. Podia existir no mundo algo mais sensual ou mais excitante? Jodie se perguntou em delrio
ao se permitir a luxria de explorar a carne tpida que cobria os msculos de Lorenzo enquanto as mos dele deslizavam sobre seu corpo e o acariciavam numa sensualidade
propositadamente lenta.
       Ele beijou-lhe a base da garganta e depois o espao entre seus seios, rodeando-lhe o umbigo com a boca enquanto ela estremecia de prazer e gemia baixinho.
       S quando ele acariciou-lhe a perna deficiente ela ficou tensa e agitou-se, sacudindo-se ansiosa e tentando escapar. Mas Lorenzo se recusou a solt-la, curvando
a cabea para beijar as cicatrizes que formavam um desenho de linhas cruzadas.
       - No... - Era a primeira vez que falava, a voz aguda e bastante angustiada.
       Ignorando-a, Lorenzo disse suave:
       - A primeira vez que vi voc, achei que tinha as mais longas pernas que eu j vira. Soube imediatamente que queria senti-las em volta de mim enquanto a possua.
       - No pode ter pensado isso - protestou. - Voc estava to zangado!
       Ela viu a boca curvar-se num sorriso divertido.
       - Voc no sabia, virgenzinha, que um homem pode ficar zangado e excitado ao mesmo tempo? Sua ex-amiga  uma idiota. Nenhum homem que se preze poderia rejeitar
voc, Jodie.
       - Minha perna - protestou.
       Lorenzo beijou-lhe as cicatrizes pela segunda vez.
       - Sua perna  ainda mais linda porque carrega a prova de sua coragem.
       Lgrimas emocionadas encheram-lhe os olhos, mas antes que pudesse enxug-las, Lorenzo comeou a procurar com a boca o caminho por suas coxas e outras emoes
mais intensas tomaram conta dela.
       A mo cobriu-lhe o sexo. Devagarzinho ele comeou a acarici-lo at que ela comeou a se curvar para que o toque a pressionasse ainda mais, seus dedos afundando-se
na pele macia dos ombros fortes enquanto as pernas se abriram totalmente para ele e a lngua juntou-se aos dedos numa ertica explorao de sua excitao.
       Ela gemeu de prazer quando sentiu-o penetrar sua umidade com um dedo, acariciando-a lentamente e depois mais vigorosamente. Imediatamente os msculos comprimiram-se
em torno do dedo e o corpo pulsou com violncia. Lorenzo se posicionou para que pudesse beijar-lhe os seios enquanto lentamente a acariciava intimamente, um outro
dedo juntando-se ao primeiro, o prazer dos movimento dos dedos fazendo que com que ela gritasse uma, duas vezes quando Lorenzo atendeu a seu chamado apertando sensualmente
o mamilo intumescido com os dentes. Seu corpo movia-se segundo seu prprio desejo, procurando um ritmo ntimo que vinha de dentro dela, acompanhado por um leve resmungo
de frustrao feminina.
       - Voc me quer dentro de voc? - perguntou Lorenzo com voz rouca.
       Jodie sacudiu a cabea e enfiou os dedos na carne dele com ainda mais fora quando ele a suspendeu, pegou um travesseiro e colocou-o debaixo de seus quadris.
Enquanto isso sua frustrao s aumentava.
       No se sentia apreensiva, envergonhada, apenas sentia uma fome pedindo para ser saciada quando olhou, sem disfarar, ele se colocar por cima dela, seus sentidos
se deliciando diante da viso dele, to vigoroso e forte.
       Lorenzo foi deslizando lentamente para dentro dela em vez de invadi-la e observava as expresses se alterarem no rosto de Jodie quando os msculos aceitaram
e se adaptaram  potncia dele, comprimindo-o.
       - Quer mais? - perguntou.
       Respirou fundo e disse com intensidade:
       - Quero. Quero voc todo...
       Podia senti-lo preenchendo-a to completamente que a sensao de t-lo dentro dela fez com que perdesse a respirao e depois enfiasse-lhe as unhas nas costas
enquanto ele se movia para dentro e para fora, com estocadas rtmicas que lhe tiraram o ar e a fizeram querer mais, cada vez mais, at que movendo-se com ele, perdeu
todo o controle, quando seu corpo tornou-se dele para lhe dar prazer at que ela no conseguiu suportar o prazer.
       Sentiu a onda de orgasmo invadindo-a, mais intensa do que de costume e to diferente do que conhecia por t-lo dentro de seu corpo ... a conduzindo a um estado
de prazer numa dimenso especial. Gritou o nome dele uma, duas vezes quando ele a preencheu com o orgasmo dele, agarrando-se a ele enquanto murmurava palavras de
amor e prazer.
       Lorenzo olhou para a cama onde Jodie continuava dormindo e se perguntou como tinha sido possvel ter a vida inteira mudado to de repente.
       Ele a tinha olhado naquele jardim ingls, visto a dor e desespero em seus olhos e descoberto, de imediato, que a necessidade de proteg-la vinha do amor que
sentia.
       Amor. Tinha estado presente desde o primeiro encontro, mas no o reconhecera porque no queria? Ou tinha surgido com a convivncia? Isso importava?
       Jodie abriu os olhos.
       - Lorenzo. - Sorriu e depois corou.
       - Voc est bem? Arrependida?
       Ela balanou a cabea.
       - Nem um pouco.
       - Voc no preferia que tivesse sido com John?
       - No. Queria que fosse com voc.
       - Hum. Bem, j que fui eu, precisamos conversar sobre o futuro. - Ele deu um profundo suspiro e afastou o olhar. - O que voc acha de tornarmos nosso casamento
permanente?
       Como ela no respondeu, ele virou-se, apreensivo, e se deparou com o rosto molhado de lgrimas.
       - No posso aceitar - disse chorando. - Eu quero, mas no seria justo com voc. No quando...
       - No quando o qu?
       - No quando sei que amo voc - admitiu.
       Lorenzo foi at a cama e sentou-se a seu lado.
       - Faria alguma diferena se eu admitisse que me apaixonei por voc?
       - S se fosse verdade - respondeu, sria.
       Ele tinha lhe segurado a mo, entrelaado os dedos aos seus e agora levava as mos aos lbios para beijar a palma de sua mo. O corao de Jodie batia agitado.
Queria tanto acreditar nele, mas tinha medo.
       - No usei camisinha - ele disse.
       Jodie engoliu em seco.
       - Quer dizer que esqueceu?
       - No. Quero dizer que preferi no faz-lo. Porque queria que nosso prazer no tivesse barreiras, que nossas carnes se tocassem e porque no posso imaginar
nada mais maravilhoso do que a idia de podermos ter feito um filho.
       - Voc confia em mim o suficiente?
       - Claro e mais do que isso: confio em voc o suficiente para admitir que a amo. Vi o jeito com que me olhou quando Louise lhe dizia coisas horrveis.
       Vi que voc queria no apenas a minha ajuda, mas a minha presena.
       Ele inclinou-se, beijou-a carinhosamente e afastou-se. Soltou um murmrio de protesto e aproximou-se, pressionando os lbios contra os dele.
       - Diga que me ama - sussurrou. - Me mostre.
       EPLOGO
       - Olhe o rostinho deles - sussurrou para Lorenzo enquanto, lado a lado, no ptio do Castillo, observavam as expresses das crianas que saltavam do nibus
adaptado para traz-los do aeroporto. A primeira leva de jovens vtimas da guerra a chegar no Castillo,. dentro do programa que Lorenzo iniciara.
       J fazia quase um ano que haviam voltado da Inglaterra, assumindo o compromisso em relao aos dois, ao casamento e  realizao do sonho de Lorenzo.
       Nos aposentos principais, as pinturas restauradas exibiam cores ricas e vibrantes. Nos dormitrios recm-pintados e mobiliados, camas esperavam pelas crianas
e terapeutas treinadas esperavam na nova ala que abrigava a piscina, as salas de tratamento e a academia.
       - O que voc est fazendo  maravilhoso, Lorenzo - disse emocionada. - Voc est dando tanto a tantas crianas, trazendo tanta alegria a suas vidas.
       - No mais do que a que voc trouxe  minha - disse, inclinando-se para beij-la. Riu, feliz, quando o filhinho de trs meses, no colo de Jodie, estendeu
a mo para apertar-lhe o dedo.
